domingo, 16 de junho de 2013
The Hunt
Realizador: Thomas Vinterberg
Argumento: Tobias Lindholm, Thomas Vinterberg
Actores: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp
Merda para esta puta de moda de excessiva protecção das crianças, merda para as bolhas Actimel que querem criar à volta destes eternos inocentes, merda para as músicas alteradas que não digam "atirei o pau ao gato" ou "esta rua cheira a sangue", merda para o apagão de antigos desenhos animados onde alguém realmente morria, onde haviam consequências, onde a puta da vida não é um carrossel com fichas ilimitadas, merda para o bullying que inventaram e que até já se fazem peças de teatro em escolas, merda para isto tudo de quem parece que nunca foi criança!
Este filme é nojento. É bom? Claro que é... É muito bom, NINGUÉM ficará indiferente ao que aqui se passa e até poderá ser proveitoso ter a maioria das pessoas a ve-lo. Mas é nojento, é revoltante... Apetece entrar pelo LCD a dentro e rebentar com metade dos personagens que entram no filme, de queimar a cidade e de gritar ao mundo que as crianças em metade do tempo que respiram também são más! São do mais puro que existe e por isso mesmo são más!
Uma mentira pode realmente destruir tudo o que construimos durante anos. Neste caso a miúda ao mentir no sítio errado à hora errada acaba com um homem, acaba com um bom homem que finalmente endireita a vida difícil que tem. Mesmo depois de estar "provado" legalmente que é inocente, a puta da sociedade onde ele se insere não aceita essa decisão e mesmo numa fase em que tudo parece mais calmo, não está. A redenção nem na casa do Senhor é consumada.
É um filme triste, uma história triste e que dá muito que pensar... O filme transmite tudo o que senti e acho que se nota que o acabei de ver. É fortíssimo, muito bem contado e acima de tudo muito bem interpretado. O Mads Mikkelsen é um estrondo e aqui prova-o novamente.
Parabéns ao filme por ser tão bom, NUNCA MAIS o verei... Odiei a experiência mas repito, é muito bom.
Golpes Altos: Tudo o que nos faz pensar e sentir mesmo que no fim precisemos de ver uma merda do Adam Sandler para relaxar...
Golpes Baixos: Ele não ter matado metade dos gajos que lhe fizeram a vida negra, o puto não ter espancado o gordo gigante e a cadela não ter ressuscitado para arrancar o escroto à dentada a quem a matou...
PS: para os que ainda acham que as crianças são lindas e inocentes, um bom anúncio para vocês AQUI.
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quarta-feira, 12 de junho de 2013
Conversas de Café - "'Tou-me a cagar pó Kubrick!"
Há confissões que só são feitas no leito de morte, mas esta não é uma delas. Aqui segue um post que carinhosamente apelidei de "As 10 razões pelas quais me estou a cagar pó Kubrick".
As 10 Razões Pelas Quais Me Estou a Cagar Pó Kubrick
Stanley Kubrick é aquele realizador que todos adoram antes de perceberem que existem outros muito melhores que ele. É uma espécie de stepping-stone do cinéfilo imberbe. Aos 15 anos, com o seu buço nervoso e o seu semblante existencialista, o cinéfilo adolescente vê e revê filmes como 2001: A Space Odyssey, Full Metal Jacket e A Clockwork Orange, como se nestes residissem as tão aguardadas respostas existencialistas para os "oh-tão-dramáticos" problemas que a falta de sexo pode causar. Mais tarde, o cinéfilo continua a sua educação, apenas para vir a confrontar-se com a terrível realidade: "Existe vida para além de Kubrick!".
Não quero com isto dizer que o realizador seja mau (longe disso), nem sequer mediano (longe disso também). Mas, ainda que me pareça justo inseri-lo numa lista dos 20 melhores realizadores de sempre (nunca menos que isso), nenhum dos seus filmes me parece digno de menção numa lista semelhante. Facto curioso, talvez explicado pela escolha do cineasta em percorrer vários géneros cinematográficos sem, de facto, investir num magnus opus superior. Mas já chega de reflexões, aqui vão as razões:
1) O Lolita é uma granda merda.
2) O Full Metal Jacket tem tanto de brilhante na primeira parte como de medíocre na segunda.
3) O 2001 é chato, pretensioso e leva 10 a 0 do Solaris.
4) O Clockwork Orange é sobrevalorizado.
5) O Spartacus é um épico quase tão mau como aquele em que o Russel Crowe não está gordo.
6) O Fear and Desire é um dos piores primeiros filmes que já vi na minha vida.
7) Para fazer um filme incrível foi preciso destruir um casamento.
8) Não tem assim tantos filmes.
9) O Dr. StrangeLove é 80% do Peter Sellers.
10) Já disse que o Lolita é mesmo uma granda merda?
Venham de lá os ataques!!!!
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terça-feira, 11 de junho de 2013
Golpes de Génio - Solaris
Realização: Andrei Tarkovsky
Argumento: Stanislaw Lem (livro)
Elenco: Donatas Banionis, Natalya Bondarchuk e Juri Jarvet
A impossibilidade de diálogo com Deus. O ser-humano feito de memórias. O amor como uma projecção. A vida como uma projecção - pouco real. São estes os temas de Solaris. Antes de ser de Tarkovsky, Solaris foi um romance de ficção científica do escritor polaco Stanislaw Lem. Mais tarde, foi também revisitado por Steven Soderbergh.
O facto mais interessante, reside na transformação que Tarkovsky fez de Solaris, tornando-o uma obra muito mais interessante que o seu homónimo literário, baseando-se mais na questão filosófica, e menos na científica ou astrológica explorada (de forma um pouco aborrecida) pelo livro. A história é acerca de um planeta que é descoberto, no qual reside um imenso oceano. Esse oceano, percebe-se ter inteligência própria, não-humana, superior. O oceano, como Deus, mantém-se uma entidade incompreendida, incontactável, e cuja omnipotência se faz sentir através da forma como sonda a mente dos cientistas que o tentam estudar.
Muito cedo no filme, qualquer tentativa de explicação científica é deixada de parte e foca-se antes na relação dos cientistas com as suas memórias. O oceano de Solaris envia aos cientistas projecções das suas memórias em carne e osso. Assim, o personagem principal é obrigado a rever a sua falecida mulher, que toma a forma humana de novo mas, curiosamente, incompleta na sua personalidade - faltam-lhe memórias, faltam-lhe características.
A ideia que Tarkovsky pretende passar é a de que as pessoas que amamos, nunca as conhecemos na realidade. Amamos projecções daquilo que achamos que elas são e, quando nos é dada uma oportunidade de materializar as nossas memórias, achamo-las incompletas. No final do filme, Tarkovsky faz algo relativamente ousado para a época - passa para o espectador o poder de julgar aquilo que vê. O espectador percebe que o personagem principal regressou, não à terra, mas a Solaris, onde vive agora rodeado das suas memórias. A questão aqui será: se nós vimos o mundo de forma limitada, qual é a diferença entre ver o mundo real ou o nosso mundo? Ou mesmo... será que o mundo, o amor e as pessoas não são apenas uma projecção de nós mesmos? No centro de tudo, nós, sozinhos com Deus. Talvez esteja a extrapolar mas, se Tarkovsky estivesse vivo, estou certo que me apoiava.
Argumento: Stanislaw Lem (livro)
Elenco: Donatas Banionis, Natalya Bondarchuk e Juri Jarvet
A impossibilidade de diálogo com Deus. O ser-humano feito de memórias. O amor como uma projecção. A vida como uma projecção - pouco real. São estes os temas de Solaris. Antes de ser de Tarkovsky, Solaris foi um romance de ficção científica do escritor polaco Stanislaw Lem. Mais tarde, foi também revisitado por Steven Soderbergh.
O facto mais interessante, reside na transformação que Tarkovsky fez de Solaris, tornando-o uma obra muito mais interessante que o seu homónimo literário, baseando-se mais na questão filosófica, e menos na científica ou astrológica explorada (de forma um pouco aborrecida) pelo livro. A história é acerca de um planeta que é descoberto, no qual reside um imenso oceano. Esse oceano, percebe-se ter inteligência própria, não-humana, superior. O oceano, como Deus, mantém-se uma entidade incompreendida, incontactável, e cuja omnipotência se faz sentir através da forma como sonda a mente dos cientistas que o tentam estudar.
Muito cedo no filme, qualquer tentativa de explicação científica é deixada de parte e foca-se antes na relação dos cientistas com as suas memórias. O oceano de Solaris envia aos cientistas projecções das suas memórias em carne e osso. Assim, o personagem principal é obrigado a rever a sua falecida mulher, que toma a forma humana de novo mas, curiosamente, incompleta na sua personalidade - faltam-lhe memórias, faltam-lhe características.
A ideia que Tarkovsky pretende passar é a de que as pessoas que amamos, nunca as conhecemos na realidade. Amamos projecções daquilo que achamos que elas são e, quando nos é dada uma oportunidade de materializar as nossas memórias, achamo-las incompletas. No final do filme, Tarkovsky faz algo relativamente ousado para a época - passa para o espectador o poder de julgar aquilo que vê. O espectador percebe que o personagem principal regressou, não à terra, mas a Solaris, onde vive agora rodeado das suas memórias. A questão aqui será: se nós vimos o mundo de forma limitada, qual é a diferença entre ver o mundo real ou o nosso mundo? Ou mesmo... será que o mundo, o amor e as pessoas não são apenas uma projecção de nós mesmos? No centro de tudo, nós, sozinhos com Deus. Talvez esteja a extrapolar mas, se Tarkovsky estivesse vivo, estou certo que me apoiava.
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quinta-feira, 6 de junho de 2013
Stand Up Guys
Argumento: Noah Haidle
Elenco: Al Pacino, Christopher Walken e Alan Arkin
Oh não... Outro filme de velhos... Será que está a pegar moda? Será que há público para ver estas palhaçadas de mau gosto, ou será que se fazem apenas para ir alimentando os egos mirrados de um punhado de ex-estrelas em declínio? Não sei, mas o resultado é uma hora e meia de tortura cinematográfica que (se retirarmos os planos das três carcaças a caminhar em slow motion) se traduz em cerca de 40 minutos de filme.
Era uma vez uma altura em que o cinema de bandidos, de golpadas e de 'kansas city shuffles' se fazia com estilo, com irreverência, com bons diálogos - com bom gosto. Eram bons tempos, mas morreram. Agora, todos os meses alguém se lembra de largar um cagalhão que envolva tiros, mafiosos e gajos cheios de pinta. Mas este filme não se fica só por aí, junta outro cliché encantador - o dos velhos que acham que o mundo hoje está perdido porque os carros têm ignição eléctrica e os bandidos maltratam as mulheres (sim, porque aposto que os gangsters dos anos '70 eram autênticos cavalheiros).
E o filme é todo isto: velhos a queixarem-se que as coisas já não são como antigamente. Sabem que mais? Quem já não é como antigamente é o Al Pacino, que está barrigudo, corcunda e parece que acabou de sair de um asilo; ou o Christopher Walken cujos maneirismos de fala já perderam a graça e reflectem agora o mau actor que ele é. Quanto a Arkin, esse mantém a dignidade - tem algumas cenas com graça, e morre antes do filme se tornar insuportável.
Não sei o que mais dizer, excepto que o realizador desta porcaria é aquele gajo estranho que nunca singrou como actor e agora está a tentar enveredar por outros caminho - Big Mistake!
Golpes Altos: Muita, muita gaja boa à volta das três carcaças - então a neta de Christopher Walken... Ui!
Golpes Baixos: Os dois velhos mais manientos de sempre; um argumento de merda e uma realização de alguém que se limita a apontar a câmara para o sítio certo.
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Searching for Sugar Man
Realização: Malik Bendjelloul
Argumento: Malik Bendjelloul
Elenco: Stephen Segerman, Dennis Coffey e Mike Theodore
Conhecem a antecipação de um espectáculo memorável? Aquele raro momento no início de um concerto em que a voz do vocalista solta a primeira nota e ela percorre o público como um arrepio de electricidade. O momento em que todos sabemos pertencer à mesma época, aos mesmos ideais e nos sentimos em harmonia com o mundo e sorrimos às pessoas à nossa volta porque sabemos que estão a pensar o mesmo que nós. A certeza de que, seja o que for que o vocalista vá dizer, está certo e pertence-nos - a este espaço e a este tempo. Isto são sentimentos especiais, talvez os tenhamos uma vez na vida, talvez nunca saibamos o que é a não ser pelas descrições dos nossos pais. Sabemos que as canções de intervenção já não são o que eram, e que os anos '70 nos roubaram a possibilidade de lutar por alguma coisa. Um sítio foi excepção - Cape Town, África do Sul. O ano é 1998, e ficará para sempre marcado no coração dos Sul Africanos como o ano em que Rodríguez voltou dos mortos.
Esta é a história da procura por um mito. Um trabalhador de colarinho azul que, no início dos anos '70, gravou dois albúns de música folk que, apesar da sua genialidade, ficaram esquecidos na espuma do tempo. Pelo menos, assim foi nos EUA. Ao mesmo tempo, no continente negro, estes albúns ajudavam na luta contra o apartheid, fazendo uma revolução cultural que acompanhou uma revolução política. Enquanto tudo isto acontecia, boatos surgiam da morte do cantor Rodríguez e, assim, sem as vantagens da Internet e do Google, Sixto Rodríguez foi idealizado como mais um mártir do rock, e esquecido por todos - excepto dois homens.
Searching for Sugar Man é o documentário do ano, não há dúvidas disso. É tudo aquilo que um documentário deve ser: factual, emotivo, denunciador, político, cultural, íntimo - importante. A tudo isto, juntamos a novidade maravilhosa da música de Rodríguez, a possibilidade de divulgar um gigante do folk que nunca o chegou a ser. E o contraste entre a neve e as fábricas de Motor City Detroit, Michigan e o sol, mar e movimento de Cape Town espelham na perfeição as duas vidas de Rodríguez. Sentimos na pele aquilo que o lendário Sugar Man terá sentido mas, mais importante, sentimos o que fez sentir. Afinal de contas, que mais pode um artista querer?
Golpes Altos: Banda sonora, contextualização política, trabalho de investigação. Um grande documentário.
Golpes Baixos: Em todos os documentários, corre-se o risco de se entrevistarem pessoas pouco autênticas. São passos necessários, mas que por vezes deixam um sentimento amargo. Este filme tem alguns.
Argumento: Malik Bendjelloul
Elenco: Stephen Segerman, Dennis Coffey e Mike Theodore
Conhecem a antecipação de um espectáculo memorável? Aquele raro momento no início de um concerto em que a voz do vocalista solta a primeira nota e ela percorre o público como um arrepio de electricidade. O momento em que todos sabemos pertencer à mesma época, aos mesmos ideais e nos sentimos em harmonia com o mundo e sorrimos às pessoas à nossa volta porque sabemos que estão a pensar o mesmo que nós. A certeza de que, seja o que for que o vocalista vá dizer, está certo e pertence-nos - a este espaço e a este tempo. Isto são sentimentos especiais, talvez os tenhamos uma vez na vida, talvez nunca saibamos o que é a não ser pelas descrições dos nossos pais. Sabemos que as canções de intervenção já não são o que eram, e que os anos '70 nos roubaram a possibilidade de lutar por alguma coisa. Um sítio foi excepção - Cape Town, África do Sul. O ano é 1998, e ficará para sempre marcado no coração dos Sul Africanos como o ano em que Rodríguez voltou dos mortos.
Esta é a história da procura por um mito. Um trabalhador de colarinho azul que, no início dos anos '70, gravou dois albúns de música folk que, apesar da sua genialidade, ficaram esquecidos na espuma do tempo. Pelo menos, assim foi nos EUA. Ao mesmo tempo, no continente negro, estes albúns ajudavam na luta contra o apartheid, fazendo uma revolução cultural que acompanhou uma revolução política. Enquanto tudo isto acontecia, boatos surgiam da morte do cantor Rodríguez e, assim, sem as vantagens da Internet e do Google, Sixto Rodríguez foi idealizado como mais um mártir do rock, e esquecido por todos - excepto dois homens.
Searching for Sugar Man é o documentário do ano, não há dúvidas disso. É tudo aquilo que um documentário deve ser: factual, emotivo, denunciador, político, cultural, íntimo - importante. A tudo isto, juntamos a novidade maravilhosa da música de Rodríguez, a possibilidade de divulgar um gigante do folk que nunca o chegou a ser. E o contraste entre a neve e as fábricas de Motor City Detroit, Michigan e o sol, mar e movimento de Cape Town espelham na perfeição as duas vidas de Rodríguez. Sentimos na pele aquilo que o lendário Sugar Man terá sentido mas, mais importante, sentimos o que fez sentir. Afinal de contas, que mais pode um artista querer?
Golpes Altos: Banda sonora, contextualização política, trabalho de investigação. Um grande documentário.
Golpes Baixos: Em todos os documentários, corre-se o risco de se entrevistarem pessoas pouco autênticas. São passos necessários, mas que por vezes deixam um sentimento amargo. Este filme tem alguns.
terça-feira, 4 de junho de 2013
Retrospectivas - John Huston
O crítico observa-o à distância. Alto, forte, respeitável - a sua figura opulenta arrasta-se, passo a passo, como um velho leão cujas pernas teimam em fraquejar. O crítico aproxima-se, a medo. 'You've been out of the movie festivals for quite some time. Why did you enter the competition this time?'. O velho leão ergue as sobrancelhas - 'Because I want to win. Oh yes, most definitely'.
John Huston foi um dos poucos homens que viveu segundo aquilo em que acreditava, e cuja obra tinha tanto de si quanto ele pôde dar. Nasceu fraco, doente e filho de um divórcio difícil. As adversidades pareciam criar em Huston um desejo pelo aperfeiçoamento. Tornou-se o homem grego. Viajou, estudou, escreveu, fez ballet, vaudeville, correu a cavalo, foi pintor abstracto e campeão de boxe. Huston lutou contra as adversidades da vida, e tornou-se um mito de si próprio.
Os seus filmes foram, na sua maioria, adaptados de grandes romances literários. Clássicos de aventura, de amor, de loucura, reflectiam a personalidade inquieta de Huston, a sua paixão pela vida - não pelo que é, mas pela luta que dá. Quando vimos filmes como Moby Dick, The African Queen, The Treasure of the Sierra Madre e Under the Volcano, conhecemos a mente de um homem que nunca baixou os braços, nunca confiou na vida, no amor, na paz nem na harmonia. Conhecemos um homem que sabia que a natureza do mundo era selvagem, e que se queríamos algo dele, teríamos que tirá-lo à força.
John Huston foi talvez a pessoa mais próxima de Hemingway que alguma vez existiu. Fez da sua vida uma obra artística, mas falhou em todos os pontos onde um homem deve vencer. Foi casado cinco vezes - Hemingway casou-se sete - e deixou em todas as suas mulheres um sentimento de incompreensão, de falhanço. Deixou nos seus filmes o homem que fez de si, superou-se fisicamente para não ter que vencer no campo emocional. Refugiou-se na bebida, em Puerto Vallarta, no México, onde passou os seus últimos dias. Pelo menos nesse campo, Huston distingui-se de Hemingway. Ao contrário do escritor, o velho leão sobreviveu a si próprio e nunca puxou o gatilho - para se suicidar, teria que aceitar a derrota face à vida e, nisso, Huston foi sempre vitorioso.
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domingo, 2 de junho de 2013
Conversas de Café - "Então e qual é o melhor elenco de sempre?"
Esta discussão já animou muitas conversas de café, e animará muitas mais para vir. Temos opções para todos os gostos. Há quem prefira filmes com elencos heterogéneos, homogéneos, de porrada, de grandes nomes, de gajas boas ou simplesmente qualquer um que não inclua o Hugh Jackman.
Fiz uma lista de algumas hipóteses que podem ajudar à discussão, mas outras sugestões são bem-vindas.
1) Con Air: indiscutivelmente um dos melhores filmes de sempre. Ok, discutivelmente um dos piores filmes de sempre. No entanto, o casting é respeitável - Nicky Cage, John Malkovich, Ving Rhames, Steve Buscemi, John Cusack e Danny Trejo (este não conta).
2) Armageddon: É verdade, qualquer filme com o Bruce Willis tem uma garantia de bom casting. Juntamos Billy Bob Thornton, Ben Affleck (cof), Liv Tyler, Owen Wilson e Steve Buscemi (foda-se este gajo está em todos), e temos um casting de Domingo a doer!
3) The Godfather: Ah, passámos para os filmes bons de repente... Brando, Pacino, Duvall, Keaton, Caan.. Meu Deus!
4) True Romance: Já falámos aqui nele, é um desfile de estrelas em modo under-acting incrível! Temos Christian Slater, Gary Oldman, Patricia Arquette, Brad Pitt, James Gandolfini, Samuel L Jackson, Dennis Hopper e Val Kilmer.
5) The Departed: Este é o mais recente desfile de estrelas. Nicholson, DiCaprio, Wahlberg, Matt Damon, Martin Sheen e Alec Baldwyn!
Alguém quer acrescentar?
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sexta-feira, 31 de maio de 2013
Golpes de Génio - Vivre Sa Vie
Realização: Jean-Luc Godard
Argumento: Jean-Luc Godard
Elenco: Anna Karina, Sady Rebbot e André S. Labarthe
Uma mulher deixa o seu marido e filho bebé. A mesma mulher começa a prostituir-se - a viver a sua vida. Nana (Anna Karina) não é boa nem má, inteligente nem estúpida - sentiu-se presa e libertou-se. Teve dúvidas acerca da forma como vivia a sua própria vida. Se calhar não a sentia como sua, se calhar sentia-se controlada ou se calhar estava simplesmente aborrecida. Não sabemos. O espectador acompanha esta fase da vida de Nana como um voyeur a quem só é permitido espreitar. A câmara de filmar são os nossos olhos, tentando constantemente, por entre conversas, desviando o olhar de cenas que não desejam ver, sentindo-se incomodados quando Nana nos fixa de volta, como se nos tivesse apanhado no acto. E os olhos dela são os segundos olhos mais penetrantes do cinema. Os primeiros pertencem a Maria Falconetti, a Joana d'Arc de Dreyer que Nana curiosamente (ou não) observa no cinema - ambas de lágrimas nos olhos, ambas vítimas do julgamento dos homens.
O filme é dividido em 12 episódios, nos quais acompanhamos Nana na descoberta de si própria e do que significa viver a sua vida. O mais curioso desses episódios ocorre quando Nana conhece um homem, no café, que lhe conta uma história e lhe transmite algumas lições de vida. A minha dúvida será sempre a mesma - estará o homem a falar com ela, ou comigo? Porque esta é a única cena no filme em que nos é permitido reflectir acerca do interior de Nana, acerca do interior de nós mesmos. Ela abandona tudo para recuperar o controlo sobre a sua vida, mas acaba por o delegar a terceiros, morrendo vítima da sua própria independência.
Parecem-me agora séculos desde que alguém me mostrou a cena de Nana com o homem do café. Essa mesma pessoa insistia numa velha fábula acerca de uma lagarta a quem é posta uma questão 'Como é possível andar sem ter pernas?' - e, desse dia em diante, a lagarta deixa de conseguir andar. O homem do café conta a Nana uma história semelhante na qual Porthos, o Mosqueteiro não-pensante, ao colocar uma bomba e preparando-se para fugir, se questiona acerca da sua capacidade motora e, imobilizado pela ideia, acaba por morrer. É uma coisa terrível, o pensamento. Sem ele, não haveriam palavras. Sem palavras, não haveriam mentiras, não haveriam erros. Sem pensamento, seríamos verdadeiros, simples e felizes. Mas não somos. 'E o amor?' - pergunta Nana. O homem explica que o amor só é possível depois dos 30, quando começamos a perder dúvidas, quando amadurecemos. Talvez... Até lá, vivemos a nossa vida, corremos os nossos riscos, fazemos as nossas escolhas, perdemos as nossas oportunidades. 'Ao menos no fim', dirão os mais inocentes, 'só nos podemos culpar a nós mesmos'.
Argumento: Jean-Luc Godard
Elenco: Anna Karina, Sady Rebbot e André S. Labarthe
Uma mulher deixa o seu marido e filho bebé. A mesma mulher começa a prostituir-se - a viver a sua vida. Nana (Anna Karina) não é boa nem má, inteligente nem estúpida - sentiu-se presa e libertou-se. Teve dúvidas acerca da forma como vivia a sua própria vida. Se calhar não a sentia como sua, se calhar sentia-se controlada ou se calhar estava simplesmente aborrecida. Não sabemos. O espectador acompanha esta fase da vida de Nana como um voyeur a quem só é permitido espreitar. A câmara de filmar são os nossos olhos, tentando constantemente, por entre conversas, desviando o olhar de cenas que não desejam ver, sentindo-se incomodados quando Nana nos fixa de volta, como se nos tivesse apanhado no acto. E os olhos dela são os segundos olhos mais penetrantes do cinema. Os primeiros pertencem a Maria Falconetti, a Joana d'Arc de Dreyer que Nana curiosamente (ou não) observa no cinema - ambas de lágrimas nos olhos, ambas vítimas do julgamento dos homens.
O filme é dividido em 12 episódios, nos quais acompanhamos Nana na descoberta de si própria e do que significa viver a sua vida. O mais curioso desses episódios ocorre quando Nana conhece um homem, no café, que lhe conta uma história e lhe transmite algumas lições de vida. A minha dúvida será sempre a mesma - estará o homem a falar com ela, ou comigo? Porque esta é a única cena no filme em que nos é permitido reflectir acerca do interior de Nana, acerca do interior de nós mesmos. Ela abandona tudo para recuperar o controlo sobre a sua vida, mas acaba por o delegar a terceiros, morrendo vítima da sua própria independência.
Parecem-me agora séculos desde que alguém me mostrou a cena de Nana com o homem do café. Essa mesma pessoa insistia numa velha fábula acerca de uma lagarta a quem é posta uma questão 'Como é possível andar sem ter pernas?' - e, desse dia em diante, a lagarta deixa de conseguir andar. O homem do café conta a Nana uma história semelhante na qual Porthos, o Mosqueteiro não-pensante, ao colocar uma bomba e preparando-se para fugir, se questiona acerca da sua capacidade motora e, imobilizado pela ideia, acaba por morrer. É uma coisa terrível, o pensamento. Sem ele, não haveriam palavras. Sem palavras, não haveriam mentiras, não haveriam erros. Sem pensamento, seríamos verdadeiros, simples e felizes. Mas não somos. 'E o amor?' - pergunta Nana. O homem explica que o amor só é possível depois dos 30, quando começamos a perder dúvidas, quando amadurecemos. Talvez... Até lá, vivemos a nossa vida, corremos os nossos riscos, fazemos as nossas escolhas, perdemos as nossas oportunidades. 'Ao menos no fim', dirão os mais inocentes, 'só nos podemos culpar a nós mesmos'.
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quinta-feira, 30 de maio de 2013
The Hangover - Part III
Argumento: Todd Philips e Craig Mazin
Elenco: Bradley Cooper, Ed Helms, Zach Galifianakis e John Goodman
Drogas, macacos, bebés, tatuagens, mini-pilas chinesas, homossexualidade (pouco) subtil, óculos de sol e... já disse drogas? A matilha está de volta, com uma conclusão muito pouco épica para uma trilogia que merecia passar do 'politicamente incorrecto' para o 'socialmente intolerável' - mas não cumpre.
Já tínhamos visto praticamente tudo aquilo que nunca queríamos ter sido obrigados a ver numa sala de cinema. No primeiro filme, Todd Philips reinventou a loucura de Old School e fez-nos acreditar que Las Vegas era o sítio para se estar. Dois anos depois Todd Philips, de uma forma bastante preguiçosa, agarra na mesma estrutura do primeiro filme e muda-lhe apenas o cenário - desta vez, saímos do filme a esfregar as mãos - 'Bangkok, bitches?'. Outros dois anos passam, e Todd Philips tem o bom senso de perceber que não é possível fazer-se três filmes com exactamente o mesmo argumento. Decide 'apimentar' as coisas. A história desta vez é mais complicada, mais trabalhada, mais coerente. As cenas de acção são melhores, as personagens são mais tridimensionais e consegue cumprir os requisitos de um último capítulo, fechando todas as portas deixadas abertas pelo primeiro. Então, o que falha? O que falha, é que ninguém espera de Hangover um filme com grandes tramas, boas cenas de acção ou personagens com conflitos interiores. O que nós queremos, é que esta merda nos faça rir. Rir às gargalhadas, tapar os olhos de nojo, abanar a cabeça em jeito reprovador - 'Epah, não acredito que estes gajos fizeram isto..'. A questão é que a conclusão épica para a trilogia, tinha implícita a obrigatoriedade de ser ainda mais incorrecta que as outras duas. Queria cocaína a voar pelo ar, Ed Helms a ser violado por um anão, Bradley Cooper a ser desfigurado com uma navalha (não quero viver num mundo onde tenho de competir com este tipo de gajos) e Zach Galifianakis a... ser ele próprio.
Em vez disto, temos demasiado protagonismo dado a Mr. Chow - o homenzinho asiático com o pénis do tamanho de um berlinde - que claramente não tem estrutura para tanto tempo de antena. Mr. Chow tem graça quando aparece de vez em quando, mas não pode ser mais importante que Ed Helms ou Bradley Cooper, isso é simplesmente errado. E assim termina uma saga, que nos proporcionou boas gargalhadas e alguns prelúdios de vómito, de uma forma bem menos ousada do que seria de esperar. No entanto, se quisermos ver os membros da matilha a caminhar em câmara lenta, ao som de clássicos como Santana, Billy Joel, Phil Collins ou Black Sabbath, vale sempre o dinheiro do bilhete de cinema.
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terça-feira, 28 de maio de 2013
Golpes de Génio - Taxi Driver
Realização: Martin Scorsese
Argumento: Paul Schrader
Elenco: Robert De Niro, Cybill Sheperd, Jodie Foster e Harvey Keitel
'The streets are extended gutters and the gutters are full of blood and when the drains finally scab over, all the vermin will drown.' - Reconhecem esta frase? Podia ser de Taxi Driver, mas não é. Pertence a um personagem criado 10 anos depois pelo cartoonista Alan Moore.
Moore, como muitos outros escritores e realizadores dos últimos 30 anos, encontrou na personagem de Bickle inspiração para o anti-herói perfeito. O psicopata solitário, o underdog, o socialmente inadaptado, o herói acidental - Travis Bickle é todos, e não é nenhum. Porque aquilo que Bickle é e aquilo em que Bickle se torna são duas coisas diferentes. No fim, fica a velha questão - será que os fins justificam os meios? E, no caso de Bickle, que fins são esses? 'Clean up the streets', diz ele. Mas porquê?
Taxi Driver é o 4º filme de Martin Scorsese, o 3º a contar de Mean Streets (ignorando o facto do début cinematográfico de Scorsese se chamar Boxcar Bertha). É também o segundo trabalho do realizador com Robert De Niro, no que seria uma gloriosa carreira a dois. Mas esta não é a única dupla que se tornou consagrada neste filme, e certamente não a mais importante. O argumentista, Paul Schrader, voltaria a juntar-se a Scorsese e De Niro para o apogeu máximo dos três artistas - Raging Bull.
Se nos desligarmos por momentos da personagem de Travis Bickle - e da maneira como monopoliza a atenção do espectador - podemos apreciar esta maravilhosa peça de cinema pela forma única como apresenta Nova Iorque. Pela cinematografia de Michael Chapman que transforma a cidade, o táxi, os esgotos e todos os seus habitantes num cenário nocturno e errante, que nos faz dar graças a Deus pelos meios onde vivemos. As luzes neon, os fumos que saem dos passeios e ocultam as putas, os drogados e os assassinos, desviando-nos a atenção da perigosidade do próprio Bickle. Quanto a este, vem de uma longa linhagem de loners e inadaptados - desde Holden Caufield a Raskólnikov - que culpam a sociedade pelo seu ostracismo, acabando por ser tornar um produto dela.
Assim, Bickle caminha pelas ruas, julgando a cidade à sua volta de olhar obsessivo, julgando-se capaz de salvar uma prostituta mas ameaçando matar um inocente. A moralidade de Bickle é a moralidade de um psicopata, e recuso qualquer teoria que venha tentar provar o contrário. Temos um filtro que utilizamos para ver o mundo. Podemos escolher o ângulo da nossa reportagem, podemos escolher o que filmar e o que deixar de fora. Bickle via a podridão dos esgotos de Nova Iorque porque estava ele próprio podre. Mas a questão final fica sempre - bom, mau ou vilão? Seja qual for, a imagem que fica de Travis Bickle é a de um homem em frente ao espelho - 'Are you talkin' to me?' - e a sua própria triste conclusão - 'You must be, 'cause I'm the only one here...'.
Argumento: Paul Schrader
Elenco: Robert De Niro, Cybill Sheperd, Jodie Foster e Harvey Keitel
'The streets are extended gutters and the gutters are full of blood and when the drains finally scab over, all the vermin will drown.' - Reconhecem esta frase? Podia ser de Taxi Driver, mas não é. Pertence a um personagem criado 10 anos depois pelo cartoonista Alan Moore.
Moore, como muitos outros escritores e realizadores dos últimos 30 anos, encontrou na personagem de Bickle inspiração para o anti-herói perfeito. O psicopata solitário, o underdog, o socialmente inadaptado, o herói acidental - Travis Bickle é todos, e não é nenhum. Porque aquilo que Bickle é e aquilo em que Bickle se torna são duas coisas diferentes. No fim, fica a velha questão - será que os fins justificam os meios? E, no caso de Bickle, que fins são esses? 'Clean up the streets', diz ele. Mas porquê?
Taxi Driver é o 4º filme de Martin Scorsese, o 3º a contar de Mean Streets (ignorando o facto do début cinematográfico de Scorsese se chamar Boxcar Bertha). É também o segundo trabalho do realizador com Robert De Niro, no que seria uma gloriosa carreira a dois. Mas esta não é a única dupla que se tornou consagrada neste filme, e certamente não a mais importante. O argumentista, Paul Schrader, voltaria a juntar-se a Scorsese e De Niro para o apogeu máximo dos três artistas - Raging Bull.
Se nos desligarmos por momentos da personagem de Travis Bickle - e da maneira como monopoliza a atenção do espectador - podemos apreciar esta maravilhosa peça de cinema pela forma única como apresenta Nova Iorque. Pela cinematografia de Michael Chapman que transforma a cidade, o táxi, os esgotos e todos os seus habitantes num cenário nocturno e errante, que nos faz dar graças a Deus pelos meios onde vivemos. As luzes neon, os fumos que saem dos passeios e ocultam as putas, os drogados e os assassinos, desviando-nos a atenção da perigosidade do próprio Bickle. Quanto a este, vem de uma longa linhagem de loners e inadaptados - desde Holden Caufield a Raskólnikov - que culpam a sociedade pelo seu ostracismo, acabando por ser tornar um produto dela.
Assim, Bickle caminha pelas ruas, julgando a cidade à sua volta de olhar obsessivo, julgando-se capaz de salvar uma prostituta mas ameaçando matar um inocente. A moralidade de Bickle é a moralidade de um psicopata, e recuso qualquer teoria que venha tentar provar o contrário. Temos um filtro que utilizamos para ver o mundo. Podemos escolher o ângulo da nossa reportagem, podemos escolher o que filmar e o que deixar de fora. Bickle via a podridão dos esgotos de Nova Iorque porque estava ele próprio podre. Mas a questão final fica sempre - bom, mau ou vilão? Seja qual for, a imagem que fica de Travis Bickle é a de um homem em frente ao espelho - 'Are you talkin' to me?' - e a sua própria triste conclusão - 'You must be, 'cause I'm the only one here...'.
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