quarta-feira, 17 de julho de 2013

Passion

Realização: Brian De Palma
Argumento: Brian De Palma
Elenco: Rachel McAdams e Noomi Rapace


Por vezes, é difícil distinguir méritos na concepção de um filme. Onde acaba o trabalho de um realizador e começa o de um cinematógrafo? Será que os actores são mesmo bons ou é a direcção que os safa? O argumento é espectacular ou parece melhor pela forma como o realizador o conduz? Bem, como resposta a todas estas perguntas, chega-nos o mais recente filme de Brian De Palma. O realizador responsável por Scarface e The Untouchables andava afastado do grande ecrã há mais de cinco anos - agora percebe-se porquê.

Vou ser breve, porque este filme não merece grande análise. O que De Palma fez aqui, foi agarrar em duas actrizes de alto gabarito, uma boa história, uma excelente banda sonora, e fazer um cagalhão de filme que se torna quase insuportável de ver até ao fim. Foi horrível. Houve alturas em que pensei que não ia aguentar mais, que teria de me desculpar neste post pela impossibilidade de criticar uma obra cujo final era para mim desconhecido. Mas consegui. Superei todos os obstáculos colocados por De Palma até para o mais bem aventurado espectador.

A história anda à volta de várias obsessões sexuais entre colegas de trabalho. Chefes que querem comer secretárias que querem comer executivas que querem comer um gajo que anda lá p'ró meio sabe Deus a fazer o quê. A única coisa que parece não acontecer naquele escritório, é trabalho. Os protagonistas estão única e exclusivamente preocupados em serem vendados e colocarem máscaras e beberem champagne. Estou interessado, para onde é que mando currículo? Bom, provavelmente para lado nenhum. O conhecimento que De Palma tem do mundo empresarial é semelhante ao conhecimento que tem da mente humana, das relações ou de como se faz um filme - zero!

E, quando achamos que o filme não pode estar mais mal feito, as actrizes não podem estar pior e a sincronização dos planos com a música sabe a amadorismo de um estudante de cinema da Reboleira, eis que o filme desata numa sucessão de twists e plot points absolutamente ridículos que, vejam bem, até mete uma gémea má no fim. De Palma, não me faças perder mais o meu tempo - principalmente se vais fazer um filme "sexy" com lesbianismo em que não se vê absolutamente NADA! Só por causa disso, vou voltar a ver o Black Swan, para não me esquecer de como se faz um bom filme e uma boa cena de lésbicas.


Golpes Altos: A música de Debussy - Prélude à l'Après-midi d'un faune. E uma cena ou outra em que Rachel McAdams sobrevive á péssima realização de De Palma e nós reparamos que ela é boa actriz.

Golpes Baixos: A realização, a realização, a realização.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Conversas de Café - "Há realizadores que não sabem envelhecer..."

Já foi aqui discutido o mau envelhecimento de certos actores de Hollywood. Os últimos filmes de monstros como Al Pacino, Robert DeNiro, Johnny Depp e até o falecido Marlon Brando foram flops que ameaçaram terminar carreiras gloriosas da pior forma possível. Mas os actores não são os únicos a padecer desta virose.

Ao analisarmos a carreira de realizadores como Danny Boyle, Guy Ritchie, Brian De Palma, Oliver Stone, Tim Burton e até o grande Coppola é como se estivessemos a assistir ao cansaço de uma antiga Miss Universo cujas plásticas não escondem um diabólico apetite por donuts.

Vamos por partes, e corrijam-me se estiver errado (ou não corrijam, qué p'ra eu não m'irritar).


1) Danny Boyle fez Shallow Grave, Trainspotting, The Beach, Millions e o espectacular Sunshine. E depois não vai de modos, e sai-se com a desgraça premiada que é o Slumdog Millionaire e a desgraça (por enquanto) não premiada que é Transe.

2) Guy Ritchie... Era tão bom quando ainda era um chunga inglês. Agora tem a mania que tem classe, mas perdeu o toque. Rock'nRolla é uma imitação barata dos seus primeiros sucessos e os Sherlock Holmes são filmes de entretenimento sem grande valor para além disso. E não esquecer aquela bosta que fez p'ra saltar à cueca à Madonna.

3) Brian De Palma... gostava de poder dizer que foi um realizador brilhante, mas nunca foi. Scarface é o seu melhor filme, e está longe de ser uma obra-prima. Mas o gajo tinha talento, não digo o contrário. Até chegar Black Dahlia e a porcaria do Passion que estreou esta semana.

4) Oliver Stone. Se alguém viu Savages ou Alexander the Gayest - palavras para quê? Bons velhos tempos do Natural Born Killers.

5) Tim Burton. Este já não é bom há tanto tempo que só me lembro de gostar dele em criança. Ao seu lado na espiral recessiva está Johnny Depp e Helena Bonham Carter. Alguém que os pare, por favor.

6) Francis Ford Coppola. Reconheço que é difícil superar o melhor filme de sempre, e o melhor filme de máfia de sempre. Mas, ainda assim, nada justifica a mediocridade de Tetro ou Youth Without Youth.


Alguma coisa a dizer?

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Sightseers

Realização: Ben Wheatley
Argumento: Alice Lowe e Steve Oram
Elenco: Alice Lowe e Steve Oram

Não sou fã de humor britânico. Acho-o pretensioso, arrogante, antiquado, aborrecido e peca por não cumprir com o propósito principal de uma comédia - não me faz rir. Também não gosto de filmes com pessoas feias. Principalmente se forem dois ingleses branquinhos, gordinhos e mal vestidos. Desculpem, mas há coisas que não suporto. Até poderia desculpar a falta de charme dos personagens caso fossem interessantes ou inteligentes, mas são duas pessoazinhas horríveis, "lixo branco" campista que adora viajar em auto-caravana e cuja ideia de partir à aventura é passear pelo country-side inglês com calções acima do joelho e meias a cobrir o resto da perna - blergh.

Dito isto, Sightseers tem a sua graça. Tem a sua graça porque está bem escrito, muito bem realizado e com dois personagens semi-complexos cujas atitudes psicóticas servem de parábola para o casamento. Ele, Chris, é um assassino psicopata regrado. Ele tem um estilo próprio, um modus operandi que segue à risca e que dá à sua psicopatia uma certa razão de ser. Ela é frustrada, passiva-agressiva, novata na arte de matar e profundamente fascinada por ele. Ela faz-lhe mal. 'I've killed more people in two days with you than I've killed in the last three months alone'. A parte boa, é que se amam muito. Poderia dizer-se que só se estraga uma casa mas, sendo que se tratam de dois assassinos em série, estraga-se bem mais que isso.

Escondida sob uma capa de humor negro, está uma crítica social engraçada. Ao longo do filme, chegam-nos agradáveis surpresas que nos fazem acreditar que há mais em Chris e Tina do que aparenta. A crítica social é uma crítica de classes, muito à maneira inglesa. Chris é um aspirante a escritor de classe média-baixa, de esquerda, naturalista, que segue a tradição inglesa da vida pastoral em comunhão com a natureza - mas em versão trailer park trash. Isto percebe-se quando Chris e Tina matam a sua primeira pessoa juntos e ela se mostra em choque com o sucedido e ele sossega-a 'He was not a person, he was a Daily Mail reader'. Juntamos estes pequenos pormenores com uma passagem do poeta inglês William Blake a ser recitada durante um assassinato e poderíamos ter um filme interessante e original. Mas, ainda assim, não me convence.

O problema de Sightseers, está na sua génese. Originalmente, Chris e Tina eram dois personagens criados pelos dois actores numa série de sketchs de humor britânico. E isso talvez tivesse resultado melhor, dentro do "melhor" que pode ser o humor inglês que permanece inalterado desde o final dos anos '70. Mas em filme, isso perde-se. Perde-se porque, na verdade, o filme não tem interesse. Não apetece continuar a ver, tem cenas de apenas curiosidade estética e, perdendo a piada graças à insistência naquele tipo de humor seco, torna-se aborrecido. Dando crédito ao realizador Ben Wheatley pela sua ousadia de câmara e aos dois actores e argumentistas pela criação das personagens, acho, no entanto, que Sightseers seria um desperdício de bobine, caso esta ainda existisse.


Golpes Altos: Os dois actores, sem dúvida. A realização, os personagens e a escolha da banda sonora.

Golpes Baixos: A história não tem interesse suficiente para se fazer um filme dela. No final, fica a sensação de tempo perdido.

domingo, 14 de julho de 2013



Realizador: Pablo Larraín
Argumento: Pedro Peirano, Antonio Skármeta
Actores: Gael García Bernal, Alfredo Castro, Luis Gnecco

Numa época conturbada no que toca a política, chega-nos um filme da época da queda do Pinochet. Não deixa de ser curioso ver que algumas ferramentas usadas para estas batalhas políticas sejam idênticas por muito que os anos passem.

Numa altura em que estava fora da moda ter presos políticos, milhares de pessoas contra o regime desaparecidas, outras tantas mortas e manifestações resolvidas à lei da bala, é lançado um Referendo no Chile onde o povo poderia escolher entre o "Si" que sugeria a continuidade do regime ditatorial do Augusto, e o "No" que sugeria a queda desse mesmo regime.
Engraçado que histórias recentes sobre derrubes de ditadores se passem normalmente em África, mas esta passou-se no Chile em 1988.

Isto podia-se tornar num filme normal e ainda mais parcial do que é, mas não, a onda "Mad Men" que lhe deram acaba por ligar-nos a um factor deste tipo de guerra que por vezes passa despercebido: o poder dos Media.
Esta história é-nos contada do ponto de vista do Publicitário (Gael) que fica responsável pela campanha do "No". Tudo se centra na guerra deste mundo poderoso que é o dos Media, tudo se centra nos videos que produzem semanalmente para a sua campanha, isto porque o responsável pelo "Si" é nada mais que o Patrão do Gael na Agência de Publicidade onde trabalha.

Não, não é um filme chato que vive apenas dos ritmos e dos símbolos da Publicidade. É um filme que nos conta uma história de um momento muito complicado que tinha tudo para acabar mal e que, porque um grupo acreditou que podia dar certo, deu mesmo certo. O que portanto parece uma evolução de qualquer romance pouco credível, é de facto um resumo de uma vitória que aconteceu mesmo e que devolveu alguma dignidade a um país nas malhas da ditadura.

Acreditem no que digo, o filme é muito menos chato do que este post.

A realização deixou-me confuso porque parece um filme dos anos 70 mas é um filme a retratar o final dos anos 80... Ainda assim tem um ritmo e uma naturalidade que é mesmo agradável de se ver, tudo muito cru mas sem que nos afaste do filme, é super envolvente.

Gostei que não exagerassem nas tensões provocadas pela pressão do regime a quem lutava pelo "No", claro que as retrataram mas evitaram o modo Telenovela.

Das melhores surpresas que tive este ano.


Golpes Altos: Perspectiva da história que querem contar, facilidade com que nos vemos envolvidos com o filme e naturalidade com que o argumento se desenrola.

Golpes Baixos: O Gael é muito bonito e tem boa "imprensa", mas não é um grande actor... Claro que ele faz sentido neste papel, mas um "monstro" poderia elevar este filme para outro nível... Porque não um Bardem?

sexta-feira, 12 de julho de 2013

After Earth

Realizador: M. Night Shyamalan
Argumento: Will Smith e M. Night Shyamalan
Elenco: Will Smith, Jaden Smith


O pai ensina-o a respirar, ensina-o a pensar. Pede-lhe que se ajoelhe, que se acalme - 'Fear is not real. The only place where fear can exist is in our thoughts of the future. It is a product of our imagination, causing us to fear that which does not at present and may not event exist. That is near insanity'. Esta é a lição principal de um filme que é feito para nos ensinar, ou relembrar, de alguns ensinamentos importantes e aquilo de que somos feitos. O filho tenta provar-se a um pai cujos feitos não dão espaço para outro homem em casa. Não é fácil, envolverá uma separação - para que o filho cresça, o pai terá que o largar, guiá-lo à distância - pelas estrelas.

After Earth é um filme sobre crescimento, e o próprio filme parece crescer com o tempo. Depois de um começo fraco, pouco claro acerca de si mesmo, deixando-nos a temer pelo pior, inicia-se uma bonita fábula que, ainda que bem ao estilo de M. Night Shyamalan, consegue limpar o cadastro do seu último flop 'The Last Airbender'. Para muitos, este não foi o único erro do realizador que prometia ser o próximo Hitchcock. Os seus espectadores mais criticos odiaram 'Lady in the Water' e 'The Happening'. Eu discordo.

Acho que percebo M. Night. Percebo o que ele quer fazer com a sua carreira, percebo o papel que está a tomar como realizador. Shyamalan está a construir um fabulário. Começou com 'Signs', em que nos ensina sobre a fé, o perdão e o destino. Passou para 'The Village', onde nos ensina sobre a bondade, a inocência e o que significa protegê-la. Em 'Lady in the Water', consolidou na perfeição uma fábula para crianças com um ensaino acerca de cinematografia e guionismo - para mim, é um dos seus melhores filmes e uma verdadeira obra de arte. Agora, com After Earth, o fabulário continua.

Desta vez, Shyamalan junta-se a Will Smith e cria uma história fabulosa acerca da coragem, do medo, da esperança e do que significa proteger e criar. Uma águia protege as suas crias e mais tarde protege Kitai (Jaden Smith) como se o seu próprio pai nela se materializasse. A águia morre, mas ensina-lhe uma lição. O planeta terra foi destruído por nós, e isso ensina-nos uma lição. Kitai quer dizer esperança em Japonês e o salto que Kitai dá da montanha, em desafio às ordens do pai, é um salto de fé. After Earth não é uma obra de arte, não é um filme perfeito - é uma história que promete ensinamentos a crianças e a adultos, e estou certo que cumprirá o seu propósito.


Golpes Altos: Um argumento sólido, alguns momentos de realização bonitos e fiéis ao estilo do realizador.

Golpes Baixos: Ainda que considere Jaden Smith uma promessa de Hollywood, acho que ainda não ganhou estatuto para ter um filme centrado nele. Não tem idade para ser a voz-off de um filme desta dimensão. Quanto a M. Night, deixa um pouco a desejar nos momentos mais introdutórios do filme, em que o suspense e a fantasia não têm lugar.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Golpes Indie - In Our Nature

Realização: Brian Savelson
Argumento: Brian Savelson
Elenco: John Slattery, Zach Gilford e Jena Malone


Pais e filhos. O tema não é novo, e os problemas também não. No entanto, há algo de fresco e agradável na abordagem de Brian Savelson - e estou a perceber o quê à medida que escrevo. É algo pouco concreto, pouco definitivo. Algo entre 1 hora de diálogos pouco profundos e o estranho aparecimento de um urso pardo na sala de estar. Mas já lá vamos.

In Our Nature é um drama familiar muito indie. A história anda à volta de um pai e um filho, e as respectivas namoradas. Há uma tensão sexual politicamente incorrecta mas verdadeiramente provável, há tensão familiar com muita coisa deixada por explicar mas que o espectador entende como natural. É isto! O que distingue o drama da paternidade de Savelson de todos os outros, é que não tenta resolver nada, não tenta explicar nada. O filme é construído por diálogos naturais, como se esta família existisse mesmo e, no fim, ela permanece igual.

Os personagens estão coesos, realistas e convincentes. O pai pertence a uma geração que comia carne, fazia a cama, gostava das coisas limpas e arrumadas, dava valor ao dinheiro porque nasceu sem ele. O filho é vegan - 'I thought you said vegetarian. Anyway, what's the difference?' - toca viola, dá valor a questões pós-materialistas, ocscila entre trabalhos como cozinheiro e como... outras coisas. Escusado será dizer que este cenário vai parecer familiar a muitos filhos de classe média, com um apetite pela vida fora da cidade e algumas lembranças de uma altura longínqua em que havia um pai presente, uma casa com luz a entrar pelas janelas e risos ocasionais de pessoas. Agora, ficam os conflitos, os desentendimentos, as diferenças agudizam-se e os ursos pardos que nos entram pela sala adentro servem para nos lembrar que o caos, o conflito e a destruição - fazem todos parte da nossa natureza.


Golpes Altos: Boas interpretações por parte de Slattery e Malone. Um argumento sólido, agradável e original. Uma fotografia que acompanha a naturalidade da realização e do sítio escolhido para filmar.

Golpes Baixos: Uma interpretação medíocre de Gilford e uma má interpretação por parte da namorada do pai.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Conversas de Café - "É mais difícil fazer de gajo normal do que de gajo cheio de tiques"

O que é um bom papel?
Todos sabemos dizer de forma mais ou menos categórica que este ou aquele actor fez um bom papel neste ou naquele filme.

Tenho uma opinião muito concreta de que alguns papéis aparentemente bons são no entanto fáceis de interpretar. Papéis com muito conteúdo para ser trabalhado tecnicamente não dependem de talento puro mas sim de trabalho árduo. Longe de mim achar que são papéis menos válidos ou fracos, mas se me pedem para comparar, acho mesmo que prefiro talento puro e prefiro papéis mais discretos que não precisam de histerismos para vingar.

Assim sendo, passo aos exemplos para tornar esta discussão mais prática:

Russel Crowe:
- Excelente no "The Informer" e aborrecido no "Beautiful Mind".

A ideia passa por tentar fazer ver que dá trabalho um papel de deficiente, de autista, de gajo cheio de problemas psicológicos, de louco, mas é muito mais difícil dar nas vistas num papel menos técnico e mais "real".

Não é por acaso que toda a malta que faz papéis em filmes da 2ª Guerra ganham óscares, é que aí todos sofrem muito, todos choram muito, todos berram muito, todos têm muito por onde pegar para fazer crescer o personagem!

Difícil é fazer um papel contido, algo que só explode de vez em quando sem dar muito nas vistas. 

Claro que o "dar nas vistas" tem excepções claras no que toca a qualidade e dificuldade nos papéis... Ora o Day-Lewis não fosse o melhor actor vivo tendo sido autor no "There Will Be Blood" de uma bíblia de como representar... 

O Jack Nicholson adora sobressair, adora ser o centro do filme... Mas sabe fazê-lo como poucos evitando passar às vezes a barreira do histerismo e over the top que tantas vezes aponto ao Al Pacino ou ao Denzel Washington. Actores de quem gosto mas que estão para mim longe do Olimpo.

Para perceberem o que digo, os meus papéis preferidos do Jack Nicholson não são no Shining nem no As Good as it Gets mas sim no About Schmidt, Chinatown e claro, A flew over the cucus nest. Basta ver os filmes e perceber o quanto tem ele para se "agarrar". O papel no Shining e no As Goos as it Gets tem certamente inúmeras páginas de personagem para estudar, tanta coisa... tantos tiques, tanta loucura... eu vejo o talento do homem nos outros filmes mencionados. 

Já agora, para picar o buddy:

Tom Cruise:
- Excelente no "Eyes Wide Shut" e aborrecido no "Nascido a 4 de Julho".

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Despicable Me 2 - Quo Vadis, Portugal?



Caros administradores da ZON-Lusomundo, UCI Cinemas e restantes distribuidores,

O país está em crise. Os juros da dívida aumentam, o investimento diminui. Temos desemprego, desemprego jovem, desemprego menos jovem e até os reformados tentam voltar ao mercado de trabalho.

Neste cenário de miséria e dependência externa, assistimos impávidos e serenos enquanto vimos os nossos jovens a preguiçar em dias de praia quando deviam estar a esforçar-se o dobro do normal. Assistimos enquanto o nosso serviço se torna cada vez pior, enquanto tudo desce de qualidade e as pessoas parecem tornar-se mais incompetentes de dia para dia. Isto são aquelas coisas que não podemos atribuir à crise - a incompetência é sistémica neste país, e a preguiça também.

E no meio de tudo isto, estão os senhores. Os senhores queixam-se que ninguém vai ao cinema, mas também não se lembram de colocar um empregado por sala (até podem ser aqueles que vimos a passear nos corredores sem nada para fazer), para controlar os animais que acham que ir ao cinema é como ver um filme em casa, e que qualquer fala ou twist na história é digna de ser comentada em voz alta, para que todos possamos ouvir o que têm para dizer. Lembram-se de uma altura em que ir ao cinema ainda era uma coisa com o mínimo de classe? Com o mínimo de seriedade? Ainda havia malta para nos sentar, ainda havia um silêncio característico de um "espectáculo" - porque, afinal, é isso que o cinema é.

E, como se tudo isto não fosse degradante o suficiente, existe a escolha de filmes. Não sei que género de anormais é que os senhores empregam para escolher os filmes que vão para cartaz, mas garanto-vos que há gente com mais qualidade disposta a ganhar metade do que eles ganham. E aqui entra a questão "Despicable Me 2".

Não me querendo alongar mais em críticas ao vosso miserável funcionamento, gostava apenas de vos perguntar o porquê de terem adquirido os direitos de distribuição do novo filme de animação "Despicable Me 2" apenas em versão dobrada? Portugal sempre teve esta vantagem relativamente aos restantes países do sul. Enquanto os anormais dos espanhóis e os limitados dos italianos dobram toda a merda que lhes vai parar ao cinema e depois estranham chegarem aos 20 anos sem saber falar inglês, nós conseguimos fugir dessa tradição europeia assombrosa e primar pela diferença. E agora, até nisso regredimos?

Tenho pena, e claramente não se pode colocar as culpas na crise. Se pode servir para alguma coisa, é para distinguir aqueles que são verdadeiramente bons dos medíocres. Mas, infelizmente, país que de medíocres é feito, medíocre há de morrer.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Hummingbird

Realização: Steven Knight
Argumento: Steven Knight
Elenco: Jason Statham e uma gaja péssima


Todos gostamos de Jason Statham. É um gajo com pinta, mauzão, inglês e careca ao ponto de nos fazer acreditar que não faz mal perder algum cabelo. Mas o grande trunfo de Statham, é a sua capacidade de dar porrada. Até agora, apenas Guy Ritchie o conseguiu utilizar de outra forma. Com Snatch e Lock, Stock and Two Smoking Barrels, Statham foi o anti-herói que balançava entre o perigoso e o cómico mas, em Revolver, "The Stath" - como é carinhosamente apelidado pelo público inglês - mostrou-nos que afinal consegue ir mais longe que uns murros e umas chapadas.

Quando vi o trailer de Hummingbird, lembrei-me do Revolver de Ritchie, lembrei-me que o realizador e argumentista era o mesmo de Dirty Pretty Things e de Eastern Promises, deixei que o ambiente criado pelo cinematógrafo me envolvesse nos dois minutos de trailer e pensei - "Isto vai ser bom!". Não foi.

De facto, Hummingbird é mesmo, mesmo péssimo. E o que irrita mais, é que podia não ser. Como disse, o trabalho de cinematografia é impressionante, e os ingleses voltam a mostrar-me que existe mais que um lado de Londres. Esta Londres é neon, é alta, é escura. Parece mais Bangkok do que uma capital de 1º mundo. E a história, ou pelo menos a sua premissa original, não é de todo má. O veterano de guerra alcoólico coaduna-se com o semblante de Statham e a a rede de prostituição e máfia chinesa estão bem enquadradas. Mas Knight já nos tinha mostrado que sabia inventar histórias, ainda não tinha era mostrado que não sabia escrever diálogos - e não sabe. São péssimos, péssimos, péssimos, e a história de amor é das coisas mais horríveis que já fui obrigado a ver, que nos obriga a desviar a cara num ataque de vergonha alheia.

E a realização? É horrível. Ponto final. É uma má estreia por trás da câmara para o guionista inglês e deixa uma má marca numa carreira relativamente equilibrada de Jason Statham, que permanece o herói de acção com uma ou duas pérolas pelo caminho. E o resultado desta combinação explosiva de excelentes aspectos gráficos com péssimos de conteúdo, dá-nos a constante sensação de estar a ver um filme de Nicolas Winding Refn, caso este tivesse batido com a testa na sanita. Ah e, por muito que se goste de Statham... Não tem metade da intensidade de Gosling.


Golpes Altos - Fotografia, Cinematografia, Statham à porrada.

Golpes Baixos - Argumento, Realização, Statham a chorar... e quem é aquela freira? Por amor de Deus...

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Retrospectivas - Sofia Coppola


'The unexpected connections we make might not last, yet stay with us forever'


'Heavy lies the crown', dizem os entendidos. Sofia discordaria. Nasceu com a mais pesada herança do cinema moderno, e superou todas as expectativas com a classe, elegância e placidez que só poderiam surgir de uma mente feminina. Curioso, se considerarmos que três dos seus quatro filmes - até à data - dividem a sua atenção entre a perspectiva masculina e feminina, parecendo compreender as fragilidades, os anseios e a solidão de ambos os sexos - como se em Sofia houvesse um pouco de tudo, masculino e feminino, cuidadosamente harmonizados para não ferir susceptibilidades.

Ao pai, foi buscar o profissionalismo, o conhecimento. Ao irmão, foi buscar a estranheza. Ao marido, a música. Mas os seus filmes transcendem a técnica, são mais que uma soma de todas as partes. Piscam-nos o olho à alma, e isso Sofia foi buscar a si mesma. Coppola estreou-se no cinema com uma adaptação do livro The Virgin Suicides, uma ode aos erros da juventude, aos amores perdidos, aos malefícios de uma má educação, à profundidade esquecida dos 16 anos. Conquistou-me imediatamente. Pareceu-me que existia alguém que compreendia os meus anseios, as minhas dores. Havia alguém que punha um filtro na câmara e via as raparigas a brilhar por entre cabelos e desejos, como eu as via.

Mas Sofia encontrou o seu lugar uns anos mais tarde, com a obra-prima Lost in Translation. A tradução do filme em português explica a abordagem da realizadora face ao amor, face à crise de meia-idade e do início de vida. Com o filme, levou um Oscar de Melhor Argumento Original, e relançou Bill Murray no que viria a ser uma nova carreira de sucesso. Pessoalmente, considero-o um dos filmes mais importantes de sempre, pela forma como reinventou o cinema, as relações e a arte. Sofia transformou a arte-pop em algo verdadeiramente significativo, utilizando os decorativos típicos do género para sustentar algo profundo e verdadeiro.

Peço-te, Sofia, que continues a usar a câmara como os meus olhos para o mundo. Mantém a inocência e a pureza da juventude porque é dela que vive a arte. Quanto a mim, continuarei a utilizar-te para fugir à frieza do mundo, e lembrar-me que a idade, tal como o amor, é um lugar estranho.