quinta-feira, 25 de julho de 2013

Only God Forgives



Realização: Nicolas Winding Refn
Argumento: Nicolas Winding Refn
Elenco: Ryan Gosling, Kristin Scott Thomas e Vithaya Pansringarm


 Na mitologia grega, a deusa Gaia casa com seu filho Urano e dá à luz os Titãs. Um desses Titãs, Cronos, ameaça a soberania do pai que, desesperado, tenta aprisioná-lo de volta no útero da mãe. Mais tarde, é Cronos que se vira contra o pai, a pedido da mãe, e o castra, lançando os seus testículos ao mar.

A mitologia está cheia de histórias bizarras, ultraviolentas. Pais que casam com as filhas, irmãos que dormem juntos, heróis castrados, impotentes, desesperados. Odisseias familiares sangrentas e perturbadoras. O novo filme de Nicolas Winding Refn, Only God Forgives, é um mito moderno de luz néon, no qual guerreiros fazem frente a dragões, semi-deuses, numa tentativa desesperada de regressar ao útero da mãe, depois de terem assassinado o próprio pai.

A estes contornos mitológicos, Winding Refn acrescenta uma ambiance noir que guia o espectador por entre o escuro e penetrante mundo de Bangkok after dark. Bangkok é um sítio perverso, um recanto do mundo onde tudo é possível, onde a cena das drogas, das lutas ilegais e da prostituição de menores se une numa só para satisfazer os caprichos de exílados ocidentais cujos hábitos de vida se tornaram demasiado negros para o mundo civilizado.

Assim é Julian (Gosling), um ex-veterano de guerra que gere um clube de Muay Thai como fachada para um negócio de droga. Ao seu lado, outro guerreiro, o irmão Billy. Ambos violentos, ambos perdidos, de almas titnuradas para além da salvação. Mas enquanto Billy deixa a sua violência e negritude correrem livres - 'I wanna fuck a 14 year old girl' - Julian mantem a sua raiva enclausurada, vítima de uma constante humilhação por parte da mãe (Scott Thomas) - 'Billy always had the biggest cock. Julian's was never small, but Billy's...'. Quando Billy é assassinado, Julian é coagido pela demoníaca matriarca para procurar e matar o seu assassino.

O filme segue uma tradição milenar de contos de vingança. Se fosse só isso, teria pouco para me cativar. A verdade é que Only God Forgives tem tanto de vingança como de perdão e impotência. O personagem de Julian começa uma interacção estranha com uma prostituta, com quem nunca tem relações sexuais. Os contactos apogeam quando Julian vê a prostituta masturbar-se à sua frente, esticando o pulso cerrado num gesto desesperado de pertencer a alguém.

O herói, aqui, é o vilão. O assassino do irmão, Chang, é um polícia que caminha pelas ruas em silêncio de espada às costas. É um semi-deus, um dragão - 'Time to meet the Devil' - e o guerreiro, por mais bem aventurado, não consegue derrotar o dragão. Chang simboliza a justiça, a placidez, o equilibrio, contra a tormenta interior de um ex-veterano que caminha por este mundo meio-adormecido, desligado, cujas mãos abertas em constantes planos pedem um perdão que só Deus pode dar.

Only God Forgives é uma obra de arte, e voltou a mostrar-me a beleza de um cinema de autor que nos transmite mensagens subliminares, cuja interpretação é necessária para que o ambiente e a história se unam num só. Palavras para quê? Os personagens quase não falam, as imagens contam a história. Only God Forgives fala das almas perdidas que deambulam pelo submundo à espera que uma espada os derrote, ou os perdoe.


Golpes Altos: Absolutamente tudo. Desde Gosling, passando por Scott Thomas até Pansringarm, as interpretações são fabulosas. A cinematografia, a fotografia, o argumento e realização são um só - de autor. A banda sonora de Cliff Martinez já tinha mostrado os seus frutos em Drive, aqui está ainda melhor.

Golpes Baixos: Críticos que deviam ser canalizadores ou jardineiros. A revista Sábado contribuiu hoje para a decadência da imprensa cultural nacional, quando deixou um senhor chamado Pedro Marta Santos dar 0% a este filme, sob o argumento de que é "pornográfico", comparando-o à Lista de Schindler de Spielberg que, segundo este senhor, também tem cenas "pornográficas". Pornográfica é a imbecilidade de certos críticos que deviam estar a escrever sobre programas de televisão e lhes é dada permissão para críticar arte.

 

19 comentários:

  1. Sim!! Diz o gajo do "o Signs é melhor que o Alien"...

    CALMA!!! Tens razão... essa malta devia ir toda ao espeto.

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    1. Toda ao espeto!

      O Signs é muito melhor que o Alien!

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  2. Para dizer a verdade, tenho lido críticas negativas a este filme em praticamente todo o lado, como o site do Roger Ebert, a Rolling Stone, o Público, e parece que até em Cannes foi vaiado.

    Eu ainda não vi o filme, e as críticas também não me tiraram a vontade de o ver. Gostei do Drive, e acho que o cinema de autor faz muita falta.

    P.S. Espera lá, há um 'crítico' português que acha que o Schindler's List é "pornográfico"? Mesmo a sério?

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    1. Mesmo a sério! Também li a crítica do site do Ebert, e tenho pena que ele já nãoe steja vivo - estaria a dar voltas na campa! Quanto à Rolling Stone e ao Publico, no comments. nem deviam fazer crítica de cinema. Em contrapartida o Bradshaw do the Guardian deu 5 estrelas, e é dos melhores críticos vivos.

      Enfim... não consigo compreender como é que alguém diz mal deste filme. O Drive é um filme mais completo, mais inovador. O Drive é melhor que este, mas o Drive é uma obra-prima. O que não quer dizer que este não seja.


      PS - Para fazer frente aos senhores do Publico, que apostam na cultura do lado errado da estrada, puxo aqui pela minha sardinha. Leiam o i!

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  3. Os críticos do Público nem conseguem concordar uns com os outros - já vi lá filmes em que um deles dá uma estrela e o outro dá quatro -, enquanto escrevem críticas tão pretenciosas que uma pessoa chega ao fim do texto sem perceber um c* do que lá está escrito e de qual é, afinal, a opinião deles sobre o filme. O Peter Travers vai muito pela bilheteira e pelo que é Oscarizado (a RS tem de vender, né?). Quanto ao Ebert, ainda hoje gosto muito de ir ler as críticas dele sobre os filmes mais antigos que vou vendo, mas de vez em quando ainda me lembro que ele deu a pontuação máxima ao Sweeney Todd, e sai-me um 'WTF?'. :)

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    1. O Ebert é um ídolo meu, e desconhecia por completo a pontuação máxima ao Sweeney Todd. Acho que acabaste de assassinar o meu respeito por ele. Não há desculpa nenhuma para se dar sequer duas estrelas a esse filme horrível lol

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    2. Ahah! Peço desculpa então... Mas pronto, é mais uma prova da subjectividade do cinema. Acho que o teu respeito por ele consegue sobreviver a esta facadinha mas, só para jogar pelo seguro, é melhor não ires procurar as pontuações dele a todos os filmes que consideras fracos, para não teres mais surpresas destas. :)

      Não tenho conhecimento de outro caso tão 'grave' como o do Sweeney Todd no currículo dele, mas sei que ele tem o Babel nos 'Great Movies'. Não gosto do Babel, mas acho-o muito mais passível de interpretação pessoal em termos de qualidade. Já o ST... Não percebo mesmo. Não o acho horrível, mas está a milhas de distância de um grande filme.

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    3. Odeio o Babel. Mesmo. É o tipo de treta pretensiosa que eu não consigo engolir. A esses erros do Ebert eu atribuo a minha desculpa preferida: tava velhinho.

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  4. Eu estava empolgada para ver o filme porque adorei o Drive, mas também estou farta de ver críticas negativas. Vou dar-lhe uma hipótese...

    O gajo que classifica um Shindler's List como pornográfico devia ser corrido à pedrada! Tal como o Ebert quando classificou o Sweeney Todd com pontuação máxima (também desconhecia essa)!

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  5. O Drive é melhor como filme, como narrativa e como inovação estilística. Este filme é muito mais profundo e existencialista que o Drive, é muito mais subliminar e rico em conteúdo. De qualquer forma, não acredito que quem goste de um não goste do outro.

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  6. Normalmente concordo com os vossos posts e críticas, mas...sinceramente este filme é apenas e só uma óptima peça de estilismo. Vale pela fotografia, pela imagética.
    Compará-lo ao Drive é reduzir o primeiro, que é muito superior.
    Não o achei cativante, não me identifiquei com nenhuma personagem, os diálogos não têm grande sentido, e é um filme que à força de querer ter densidade emocional, não a consegue ter.
    Eu gostei imenso do Drive e achei este um desperdício do meu dinheiro, there I said it ;).

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    1. Pronto, lá se vai a minha teoria do "quem gosta de um, gosta do outro" lol

      Epah eu acho uma grande injustiça limitar este filme a "uma peça de estilismo". Se é verdade que o filme é muito estético, também é verdade que aborda temas muito densos de uma forma muito subtíl. Quanto a identificarmo-nos com os personagens, reconheço que isso possa ser uma vantagem para um filme - mas não é essencial. Este filme é um filme artístico que não se rege pelas mesmas leias narrativas de um filme normal. Se virmos alguns filmes da Nouvelle Vague, do expressionismo alemão ou do surrealismo espanhol também duvido que nos identifiquemos com algum personagem. O Drive é um filme que, apesar de idêntico em termos estéticos, é muito diferente em termos narrativos. É mais simples, mais fluído. Este filme tem que ser interpretado. Cada imagem vale um simbolismo - relembro os planos constantes da espada, das mãos, etc...

      Dizer que o filme vale pela estética e pela fotografia é não ver o que ele esconde por detrás disso. É injusto.

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    2. Tens razão quando dizes que não é preponderante identificarmo-nos com algum personagem, mas é imperativo que elas nos causem algum sentimento.
      Nós temos de sentir a dor/o amor/a saudade/o que seja, para conseguir elevar, para nós, esse filme ao next level.
      Acho-o, como referi, um bom exercício de estilo, o filme é realmente bom nesse aspecto, consegue ser metafórico, ou até que consígamos compreender o que está por trás, ou o que quis ser dito, sem o ser. Simplesmente temos de nos esforçar mesmo para o fazer, não é fácil, exige de nós uma atenção para compreender, que, face à necessária para gostar do que estamos a ver, se desiquililbra. Resumindo: não nos compele, não nos implica, não nos faz querer responder de volta ao filme (ou se calhar esta parte faz parte de um desiquilíbrio próprio meu lol).
      Não aprecio muito filmes mainstream e gosto de ver cinema alternativo, por assim dizer, mas gosto deles com significado, não apenas aquela sensação de "não admira que tenham saído uns desviados, com uma mãe daquelas, mas o Karaoke estava porreiro".

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    3. LOL tiveste graça com essa do Karaoke, e tens razão quando dizes que requer atenção e interpretação. Quanto a sermos compelidos pelos personagens, discordo contigo porque eu pessoalmente fui. Identifico-me com os motivos, com as acções e com os desafios de todos eles. Mas isto é subjectivo, suponho.

      Quanto à cena do karaoke, entendo-a como os pillow shots do Ozu, ou como o gengibre do sushi que serve como interlúdio entre um prato e o outro. Para além disso, se reparares, a cena do karaoke segue-se sempre a um golpe de justiça do polícia e mostra que o corpo policial tailandês está unido, ao contrário dos bandidos ocidentais que são os invasores e perdem porque não são dali, não partilham a mesma cultura e o mesmo respeito. A cara dos policias a observarem o Chang a cantar é incrível.

      Enfim, para mim o filme está cheio de mensagens espectaculares e já o vi 3 vezes e adoro cada vez mais.

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  7. Na falta de todos esses adjectivos cinematográficos, que por aqui tão bem se empregam, diria que o filme é uma merda. E se mesmo assim o forem ver, nunca o façam na ultima sessão. Impressionante como a falta de dinâmica consegue tornar cenas potencialmente chocantes em algo tão aborrecido!

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    1. Quando se fala de filme, sou apologista dos adjectivos cinematográficos. Para falar de literatura, de adjectivos literários. E para dizer merda, de adjectivos de merda.

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  8. E pronto, já o vi. Visualmente deslumbrante, com uma ambiguidade moral que se entranha em nós e não nos larga até ao fim. E não era fácil contar esta história com tanta metáfora visual. Não é o Drive mas é claramente mais ambicioso e complexo que o Drive. Um grande filme. Tem mais do Valhala Rising que do Drive. E a banda sonora do Cliff é melhor neste filme. Não tem o som emulado dos anos 80 das canções mas como OST é superior. E o karaoke é...a sério, é mesmo :D
    Nuno Rechena

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  9. Isso foi o que pensei a ler esta crónica. Há demasiada gente a querer ultra intelectualizar a critica do cinema ou a simplificar em demasia. Às vezes ficar no meio termo e apreciar os filmes por aquilo que sao é o melhor caminho :)
    Nuno Rechena

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