terça-feira, 2 de abril de 2013

Golpes Indie - Before Sunrise / Before Sunset

Realização: Richard Linklater
Argumento: Richard Linklater
Elenco: Ethan Hawke e Julie Delpy


No primeiro filme, ele senta-se numa ponte em Vienna. Ela encosta a cabeça ao seu colo enquanto ele, jovem apaixonado, lhe recita um poema de W. H. Auden - 'But all the clocks in the city / Began to whirr and chime: / Oh let not time deceive you, / You cannot conquer time'. E esta é a triste e sinistra verdade desta obra. Não há nada mais derradeiro que o tempo. O tempo é inimigo da juventude, é inimigo do amor. Passamos a vida toda a lutar contra ele, tentando conquistá-lo. Não sei se Jesse ou Celine tiveram alguma vez noção, enquanto personagens, da importância que o tempo teria na sua vida cinematográfica.

Before Sunrise e Before Sunset são dois filmes sobre tempo. O tempo que dois amantes têm para se conhecerem, para se apaixonarem e para se despedirem. São só umas horas, mas é suficiente. Jesse e Celine conhecem-se em Vienna, apaixonam-se, encontram um no outro as idiossincrasias comuns de adolescentes incomuns, fazem promessas difíceis de cumprir, deixam uma porta aberta que só um destino muito benevolente poderia fechar.

Passam 9 anos. Já não são adolescentes. Nunca mais se encontraram. As suas caras carregam as marcas de desilusão comuns aos 30 anos - ambos foram amados, magoados e abandonados. Se cresceram ou não em sentidos opostos, não interessa. Mas, quando voltam a encontrar-se por acaso, a conversa é diferente - e a cidade também. O crepúsculo romântico de Vienna dissolve-se, é trocado pela fria realidade da tarde Parisiense. As luzes são mais claras, as ruas estão mais cheias. Desta vez, Jesse e Celine são obrigados a confrontarem-se com a realidade. Mas, se os seus diálogos perderam algum romantismo, a sua relação torna-se agora mais concreta, mais palpável. O amor permanece platónico, o tempo contínua a fugir-lhes, as vidas de cada um parecem impedi-los de permanecer neste limbo dos amantes.

Isto é o que me diz o meu eu romântico, o meu eu adolescente que ainda me grita ao ouvido coisas horríveis a meio do dia. Mas o meu eu adulto vê as coisas de forma diferente. Vê mais esperança no segundo filme que no primeiro. Ambos acabam em aberto, não nos deixando saber o que vai acontecer com o casal mas, enquanto no primeiro as promessas são feitas em forma de sonho, de paixão; no segundo o silêncio fala por si, mais maturo, mais verdadeiro. Por vezes, quando se cresce, percebe-se a necessidade de se estar calado, percebe-se a importância de não se fazer promessas. Quando crescemos, aprendemos a não nos deixarmos enganar pelo amor ou pelo tempo e podemo-nos encostar e sorrir, sabendo a impossibilidade de os manter ou conquistar.

Richard Linklater começou este projecto quando se dava o boom do cinema independente dos anos '90. Manteve-se fiel ao seu estilo e ao objectivo da sequela. Agora, 18 anos mais tarde, Linklater volta a pegar num projecto que ainda tinha uma última palavra. Estreia este ano Before Midnight. Esperemos que Jesse e Celine tenham crescido tão bem como gostariamos ou que, pelo menos, não estejam pior do que quando começaram.


Golpes Altos: Um filme de adolescentes que passa para um filme de jovens e que, dentro de pouco tempo, acabará num filme de adultos. Faz-nos perceber que a beleza da solidão é a perspectiva de a terminar.

Golpes Baixos: Haviam 1000 mulheres mais interessantes que a Julie Delpy... 1000!

12 comentários:

  1. Das minhas maiores paixões...

    No 1º todos queremos viver aquilo, todos vivemos aquilo (o conteúdo, não necessariamente a forma) mas poucos de nós viveram o que se passa no 2º.

    Estou muito curioso para o que aí vem... Isto é Golpes de Génio, sem dúvida.

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  2. Sim, podia ser de Génio tb. So escolhi pô-los nos indie porque foi um dos primeiros a marcar o inicio do renascimento do cinema independente.

    Esperemos que o 3º seja optimo...

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  3. Buddy, não concordo com duas coisas no teu artigo, mas falo só do primeiro filme.

    O tempo: acho que é um aliado, não um inimigo. Já o temível Aquiles afirmava, num rasgo poético pouco consentâneo com a seu estatuto de Rambo micénico, que os Deuses invejam os Homens, porque é a mortalidade que dá substância ao momento - "every moment can be our last". Teria aquela noite sido a mesma noite se não fosse a única?

    A rapariga: não há ninguém, NINGUÉM, melhor que a Julie Delpy para o papel.

    Este filme faz-me sentir uma gaja: sentimentaliza-me a análise e melancoliza-me as horas. Torno-me um adolescente que não sabe porque está triste.

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  4. Já dizia o Belmondo no Acossado: "Quero viver imortal, e depois morrer". A mim o tempo atraiçoa-me, não sinto nada como único, só como passado (onde é que li há pouco tempo que o presente não existe? para mim só há passado e futuro).

    Quanto à Delpy, não a acho bonita, não a acho boa actriz, não a acho nada... Qualquer outra serviria melhor o papel!

    Também me sinto um adolescente a ver estes filmes. But than again, não são só estes...

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  5. São os meus filmes do amor. Que dizer mais? Que os erros que se cometem pagam-se em tempo e, felizmente, a tempo. O amor e a paixão conhecem timings e fusos horários próprios e se passa o resto da vida a acertar o passo com eles.

    A Delpy é tão parte disto tudo que não imagino outra (tenho fetiche com a Eva Green, mas não sei não...).

    São a naturalidade e honestidade dos filmes que os tornam especiais.

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  6. Ui... Eva Green! Amen! Agora a Delpy ainda me parece pior!

    Quanto aos erros, pagar-se-ão em tempo não haja dúvida... só não sei se a tempo. Pelo menos os meus.

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  7. Vou ter de rever estes dois antes de ver o Before Midnight! :) E estou como o Fonemas, não consigo imaginar outra pessoa no papel para além da Delpy, independentemente da beleza dela ou da capacidade de representar. Mas a trocar não seria pela Eva, a Eva tem aquele olhar matador (meu deus, que olhar) que muitas poucas têm e que não assenta bem neste filme, isto requer uma actriz com um olhar mais terno. :)

    "Já dizia o Belmondo no Acossado: "Quero viver imortal, e depois morrer"." Vi tantos filmes do Belmondo com o meu pai quando era mais nova! ^^

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    1. Tens um grande pai de certeza! O Belmondo é um anti-herói eterno!

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  8. Sem Julie Delpy não era a mesma coisa... lol... ela é Celine.

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  9. A questão não está na Julie, está na relação com o Ethan. Haveriam outras milhares de actrizes mais bonitas ou interessantes, mas a dinâmica dos dois é esta e é para não ser quebrada nem em suposição.
    Quero muito ver o terceiro filme, espero sinceramente uma perspectiva real, conto com alguma desilusão do amor com o passar do tempo, mas espero simultaneamente que a vida não os tenha tratado muito mal, ou, em vez de um passeio por uma capital europeia, acabemos com eles no Tasco do Zé a comer croquetes em frente um ao outro, olhando em direcções opostas, em silêncio sepulcral.

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    1. Não podia concordar mais Rosa. Quero que me mostrem o pior para depois me darem esperança. Quero realismo, não quero extremos. E tenho alguma fé na relação dos dois. Tive sempre, acho que o objectivo era esse :)

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