Realização: David Ayer
Argumento: David Ayer
Elenco: Brad Pitt, Shia LaBeouf, Logan Lerman, Michael
Peña, Jon Bernthal
Desengane-se quem vai à procura
do convencional filme de guerra quando entra numa sala para ver este Fury, o novo filme dum relativamente
desconhecido David Ayer, argumentista e realizador, que até agora tinha como
nota maior no currículo o argumento do excelente Training Day de Antoine Fuqua, e mais recentemente toda a concepção
do interessante End of Watch, com Jake
Gyllenhaal e Michael Peña, com quem volta a trabalhar aqui.
Seguindo a história dum tanque de
guerra norte-americano em 1945, já no interior da Alemanha nazi, a qualidade da
película assenta acima de tudo em duas pontes: dum lado, o relacionamento das
personagens que compõem a equipa, liderada por um excessivo e céptico mas
humano e amargurado sargento conhecido como Wardaddy – Pitt numa espécie de
versão lunar do Aldo Rayne de Inglourious
Basterds –, personagens essas demasiado marcadas pelo que viram e sofreram
e todas elas num estado de quase insanidade; do outro, as cenas de combate
brilhantemente filmadas e com uma adrenalina de cortar a respiração. Há
momentos em que a claustrofobia do tanque passa para a sala e nos sentimos
incómodos, como que amordaçados pela situação.
E essa tensão, e a frieza como é
retratada, é ponto-chave em Fury: não
há melodrama, não há sentimentalismo em excesso. Mesmo a cena do banho e da
refeição é tão gélida (a forma como Wardaddy aborda as mulheres e confronta os
seus homens) quanto emocional (o “momento” de Norman e Emma). O objectivo
de Ayer, de princípio a fim, ou pelo menos até perto dele, é colocar-nos dentro
daquele tanque, na pele daqueles homens. Sentir aquela violência, física e
mental.
Fury é a guerra vista da forma crua e feroz que por vezes não
queremos ver. Não é complexo nem pretende sê-lo, embora detalhista nas cenas de acção. É focado no dever de missão, na sobrevivência, na demência que se vai
instalando e nas poucas crenças a que ainda nos vamos agarrando quando o
desespero teima em levar-nos – LaBeouf, ou Bible, mensageiro da palavra santa.
Pena que não termine sob a mesma
matriz e sucumba perante uma dimensão reconfortante da guerra, por assim dizer,
onde sempre há espaço para a esperança, a salvação, o milagre. Não encaixa com
a frieza e brutalidade com que Ayer nos conduziu em mais de duas horas. Ou
talvez não pretenda encaixar, e não seja mais do que o acto divino pelo qual Bible tanto pregou.
E por falar em LaBeouf, uma
última palavra: por favor não frites, tenta não fazer muito mais merda (já
fizeste alguma) e torna-te no actor de época para o qual estás predestinado.
Golpes Altos: A sobriedade do
projecto. Os planos de Ayer, sobretudo em combate. A direcção de actores,
magistral. Todo o elenco, ainda que assente no carisma de Pitt.
Golpes Baixos: O final, algo sentimental. Mas talvez seja um problema meu, principalmente com retratos de
guerra.
