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terça-feira, 9 de julho de 2013

Conversas de Café - "É mais difícil fazer de gajo normal do que de gajo cheio de tiques"

O que é um bom papel?
Todos sabemos dizer de forma mais ou menos categórica que este ou aquele actor fez um bom papel neste ou naquele filme.

Tenho uma opinião muito concreta de que alguns papéis aparentemente bons são no entanto fáceis de interpretar. Papéis com muito conteúdo para ser trabalhado tecnicamente não dependem de talento puro mas sim de trabalho árduo. Longe de mim achar que são papéis menos válidos ou fracos, mas se me pedem para comparar, acho mesmo que prefiro talento puro e prefiro papéis mais discretos que não precisam de histerismos para vingar.

Assim sendo, passo aos exemplos para tornar esta discussão mais prática:

Russel Crowe:
- Excelente no "The Informer" e aborrecido no "Beautiful Mind".

A ideia passa por tentar fazer ver que dá trabalho um papel de deficiente, de autista, de gajo cheio de problemas psicológicos, de louco, mas é muito mais difícil dar nas vistas num papel menos técnico e mais "real".

Não é por acaso que toda a malta que faz papéis em filmes da 2ª Guerra ganham óscares, é que aí todos sofrem muito, todos choram muito, todos berram muito, todos têm muito por onde pegar para fazer crescer o personagem!

Difícil é fazer um papel contido, algo que só explode de vez em quando sem dar muito nas vistas. 

Claro que o "dar nas vistas" tem excepções claras no que toca a qualidade e dificuldade nos papéis... Ora o Day-Lewis não fosse o melhor actor vivo tendo sido autor no "There Will Be Blood" de uma bíblia de como representar... 

O Jack Nicholson adora sobressair, adora ser o centro do filme... Mas sabe fazê-lo como poucos evitando passar às vezes a barreira do histerismo e over the top que tantas vezes aponto ao Al Pacino ou ao Denzel Washington. Actores de quem gosto mas que estão para mim longe do Olimpo.

Para perceberem o que digo, os meus papéis preferidos do Jack Nicholson não são no Shining nem no As Good as it Gets mas sim no About Schmidt, Chinatown e claro, A flew over the cucus nest. Basta ver os filmes e perceber o quanto tem ele para se "agarrar". O papel no Shining e no As Goos as it Gets tem certamente inúmeras páginas de personagem para estudar, tanta coisa... tantos tiques, tanta loucura... eu vejo o talento do homem nos outros filmes mencionados. 

Já agora, para picar o buddy:

Tom Cruise:
- Excelente no "Eyes Wide Shut" e aborrecido no "Nascido a 4 de Julho".

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Óscares 2013



Melhor Filme: Argo
Embora fosse o favorito, não é de todo o melhor filme do ano. Para mim seria o Amour. Difícil de ver? Sim, mas tem uma dimensão única. Não me lembrarei do Argo daqui a 2 meses. Ainda antes

Melhor Realizador: Ang-Lee
Gostei do óscar. Gosto muito do Life Of Pi e gosto muito do Ang-Lee. Se merecia de caras? Não me parece... Mas os meus favoritos (dos nomeados) eram ele e o Haneke.
A academia deixou de fora o Tarantino, o P.T. Anderson e o Ben Affleck, nenhuma destas ausências se justifica minimamente.
O melhor Realizador do ano para mim, de longe, foi o P.T. Anderson.

Melhor Argumento Original: Django Unchained
Entre este e o Moonrise Kingdom, venha alguém e escolha. Assim foi. Ao menos vimos o Tarantino ganhar alguma coisa.

Melhor Argumento Adaptado: Argo
Bom argumento de facto. Muito bem adaptado. Não é estrondoso mas é coeso. Menos coeso mas mais brilhante foi o Life of Pi.

Melhor Fotografia: Life Of Pi
Quem mais?

Melhor Edição: Argo
Um óscar bem entregue. Tudo bem cortadinho, tudo bem feito. O filme mais profissional do ano merecia até mais óscares técnicos. No entanto, o meu favorito era o Zero Dark Thirty.

Melhor Actor: Daniel Day-Lewis
Continuo a achar que o Joaquin Phoenix no The Master faz o melhor papel do ano. Mas se este óscar servir para destacar o Day-Lewis como o melhor de sempre... Estou de acordo! O único actor da história a vencer 3 óscares de melhor actor principal é, de facto, Top 2 dos melhores de sempre junto do Marlon Brando.

Melhor Actriz: Jennifer Lawrence
O óscar mais ridículo da noite. Se o Argo é um filme muito profissional e uma história bem contada e realizada, o papel da boazona da Jennifer não é nada disto. É meio dark/divertido mas... hey... é um papel que até a Sandra Bullock fazia.
Se a isto juntarmos o facto da Emmanuelle Riva estar nomeada... Então passa a ser um prémio anedótico. Quem conseguia fazer o papel da Riva? Poucas... tão poucas...

Melhor Actor Secundário: Christoph Waltz 
Era o óscar mais difícil. Excelentes nomeações (tirando o De Niro... Trocava-se bem pelo Di Caprio) e tinha de haver um vencedor. Entre Waltz, Tommy Lee Jones e Hoffman, o boneco dourado ficava bem entregue. Ganhou o mais "en vogue".

Melhor Actriz Secundária: Anne Athaway
Mais um óscar parvo. Gosto muito da Anne Athaway, não necessariamente por ser uma grande actriz. A minha preferida para este prémio era a Helen Hunt no 6 Sessions, sendo que se ele caísse nas mãos da Amy Adams (The Master) ou até da Sally Filed (Lincoln) não ficaria muito aborrecido. Agora... Na Anne só porque rapou o cabelo? Mas isto é o The Accused?

Melhor Filme Estrangeiro: Amour
Era o mínimo e foi o mínimo. O filme mais poderoso do ano leva uma estatueta para casa.

Melhor Filme de Animação: Brave
Sei lá... Não vi nenhum... Que dizem vocês?

Nota final bastante positiva para o Seth MacFarlane, um bom host. Com piadas em modo Ricky Gervais soft. Gostei do que vi (não vi tudo, um gajo tem que dormir).


PS: Mia Farrow no Twitter: You can tell who's doing coke.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Lincoln


Realização: Steven Spielberg
Argumento: Tony Kushner
Elenco: Daniel Day-Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones, John Hawkes, James Spader e David Strathairn


Não foi fácil formar uma opinião relevante sobre Lincoln. Dei de caras com um dos melhores elencos de sempre, com um guião brilhantemente trabalhado e com uma realização sóbria mas nem por isso menos perfeita. O que o filme me disse - essa é outra história.

Não posso deixar de me mostrar mais cativado pelo filme do que pelo homem. Abraham Lincoln foi um autodidacta, um homem com uma bússola moral perfeitamente afinada e um sentido de justiça acima do que se pedia naqueles tempos. No entanto, Lincoln não foi o líder forte que eu imaginava, o gigante de cartola que impunha respeito e cujo carisma era seguido pelas massas. Lincoln não era esse tipo de líder. Era calmo, paciente, modesto e a voz tendia a fugir-lhe para o rabo. Não fosse pela altura e o semblante cadavérico, não sei que tipo de carisma se podia esperar de um homem destes.  Mas a realidade é que o teve, e utilizou-o de uma forma ultra-racional para satisfazer a sua percepção de "bem maior".

A temática do filme é circunscrita a um determinado período histórico, de um determinado povo, num determinado contexto. Isto para dizer que é obviamente mais significativo para os EUA do que para nós - que na realidade não temos memória colectiva de escravatura, por ser um assunto há tanto deixado por terra. Por esta razão, a primeira hora de filme atingiu-me como um tanto aborrecida, e os monólogos de Lincoln referentes a uma realidade que não era a minha - o filme não estava a falar comigo, e isso adormeceu-me. Mas eis que entra a personagem de Tommy Lee Jones, Thadeus Stevens.

Stevens é, na minha opinião, a personagem mais interessante do filme (incluindo o próprio Lincoln) e aquela que mais nos prende pelo dilema que é obrigado a enfrentar, e o que resulta dele. O comic-relief vem-nos dos três Senate Whips - responsáveis pela angariação de votos democratas e republicanos - interpretados por James Spader, John Hawkes e Tim Blake Nelson. A personagem de Joseph Gordon-Levitt considero-a não só irrelevante, como despropositada, porque o filme não lhe dedica tempo suficiente para que faça sentido a sua suposta profundidade.

No fundo, não considero Lincoln um filme biográfico, mas antes um filme histórico, referente a uma situação muito concreta da história dos EUA - a abolição legal da escravatura. O interessante é a abordagem do filme no que toca à igualdade. Pessoalmente, abomino a ideia de igualdade. Considero-a não só errada como perigosa, e acho que o melhor preconceito que podemos ter é que todos os homens nascem desiguais. Dito isto, acho que todos devem ser iguais legalmente, e a todos devem ser oferecidas iguais oportunidades de vida. O que retirei deste filme é que, no direito assim como na matemática, "se duas coisas são iguais a outra coisa, então essas duas coisas são também iguais uma à outra". Mas no fundo, essa premissa foi apenas utilizado por Lincoln para conseguir algo muito concreto e prático - a abolição da escravatura - e não para publicitar uma reflexão teológica acerca da origem do homem.
E respeito o filme por isso. Por não pretender ser mais profundo do que é. É um filme histórico perfeito - Igual a tantos outros na forma, mas único pelo conteúdo.


Golpes Altos: Interpretações, argumento, guarda-roupa e cenografia.

Golpes Baixos: Discurso final fraco e péssima montagem final da vela a ser substituída pela figura de Lincoln. O que mais uma vez me prova que Spielberg é bom porque se rodeia de gajos bons - quem escreveu este argumento maravilhoso, por exemplo.