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domingo, 5 de maio de 2013

Golpes de Génio - Synecdoche, New York

Realização: Charlie Kaufman
Argumento: Charlie Kaufman
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Samantha Morton, Catherine Keener, Diane West e Michelle Williams

Nova Iorque é o palco para a sinédoque de Charlie Kaufman - argumentista de Adaptation, Being John Malkovich e Eternal Sunshine of the Spotless Mind. E uma sinédoque, lembram-se do que é? É uma figura de estilo, na qual se exprime um todo por uma parte. E é precisamente assim que o filme funciona. A parte é Nova Iorque e o personagem principal, o todo somos nós e o mundo.

 Seymour Hoffman é um encenador neurótico a quem é atribuída uma bolsa milionária para produzir uma nova peça - a quem é dada uma oportunidade para escrever a sua obra-prima. E é aqui que entra a sinédoque. Porque a peça mistura-se com filme, que se mistura com a vida, que se mistura com a peça. De repente, temos personagens a fazer de personagens a fazer de personagens e todas percebem onde estão e o papel que é suposto desempenharem - mas será que isso chega?

Na vida, escolhemos o tipo de pessoa que queremos ser, a vida que queremos levar e definimos papeis para as pessoas que amamos, para as pessoas que nos são importantes. Rotulamo-las, tornando-as personagens secundárias de um filme que, em último caso, é sempre sobre nós. Este filme imita a vida. A personagem de Seymour Hoffman atribui papeis às pessoas que ama, como nós fazemos ao longo do tempo. Passa 20 anos a guiar as pessoas da sua vida numa peça que não tem público - que ninguém está a ver. Esta é deprimente conclusão deste filme. Todos nós vivemos na esperança que alguém repare no que fazemos, mesmo quando estamos sozinhos. Os papeis que damos aos outros nem sempre são interpretados da forma correcta, e depois desiludimo-nos. Desiludimo-nos porque não amamos os outros, amamos os papeis que lhes damos e portanto amamos projecções de nós próprios. Parem-me se estiver a ficar confuso. A confusão pode vir a meio do filme, e um segundo visionamento é recomendável. Mas tudo começa a fazer sentido quando o encenador percebe que o truque para fazer a sua grande peça é simples - dar a todas as personagens um papel principal. Então onde está o erro? O erro está em ser ele a atribuí-lo.

Em Synecdoche, New York, Charlie Kaufman encaminha-nos por uma mega peça de teatro, em que o palco é Nova Iorque, em que todos têm um papel mas um papel desenhado por ele. E o resultado é uma cidade vazia, uma peça sem público, uma vida de desilusões e sonhos perdidos e, no centro de tudo isto: nós, sozinhos, velhos e conscientes de que a vida que construímos é falsa - uma peça de teatro egoísta, feita só para nós. Porque o público não aparece, os actores secundários têm uma peça só deles e os figurantes, os transeuntes, esses... somos nós?


Peço desculpa se o texto está demasiado confuso, mas o filme assim o exige.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Oz: The Great and Powerful


Realização: Sam Raimi
Argumento: Mitchell Kapner e David Lindsay-Abaire
Elenco: James Franco, Mila Kunis, Michelle Williams e Rachel Weisz

Há alguns anos atrás, acordei um tanto sobressaltado com um sonho. Nesse sonho, era-me oferecido um repasto num conhecido restaurante lisboeta - e até aqui tudo bem - o problema foi que, à primeira garfada, a comida desapareceu antes de me cair no goto. Era como se estivesse a comer uma nuvem sensaborona e traiçoeira. Foi mais ou menos isto que senti com Oz: The Great and Powerful.

O filme surge como uma prequela ao clássico de L. Frank Baum "O Feiticeiro de Oz", mas não dignifica as suas origens. A história é óptima, e só isso já seria uma grande ajuda para não se fazer um filme de merda. Mas não, Sam Raimi consegue ser cada vez mais medíocre. A história da sua mediocridade vem desde o início da sua carreira como realizador de terror Classe-B e avança mais de uma década até à gigantesca merda que foi a trilogia Spider-Man. Não, mentira: vem até à merda que é este filme.

Mas porque é que Raimi falhou? O filme tem tão bom aspecto, tantas cores e actores famosos. Pois, é precisamente por aí. Raimi agarrou numa história riquíssima e decidiu transformá-la numa espécie de "Avatar - A Sequela". Tudo no filme são efeitos especiais ultra-digitais e preparadinhos para serem vistos num IMAX 3D. E isso não podia ser feito. Não com Oz. Não com uma das peças mais importantes da cultura juvenil universal.

E depois há os actores. Oh... os actores. Temos portanto um dos piores aí da praça a fazer uma das personagens mais místicas e icónicas de sempre. James Franco, you suck! És um gajo fixe de certeza. Tens graça e fazes bem de ganzado. Mas nunca, nunca mais tentes fazer um personagem emocionalmente profundo ou complexo. Porque tu próprio não o és, e também não o consegues fingir. E depois temos as bruxas... Frank Baum está a arranhar o tecto do seu caixão. Mila Kunis e Michelle Williams não conseguem ser nem más, nem boas. São simplesmente... neutras? Rachel Weisz salva a coisa e dá a única boa interpretação do filme (juntamente com Zach Braff que tem sempre alguma piada).

E é isto. E é triste, porque já é altura de alguém com talento e que perceba a profundidade do Man  Behind the Curtain agarrar neste clássico e dar-lhe a homenagem merecida. Já é altura, mas ainda está para vir. No entanto, se estiverem com fome de pipocas e quiserem levar os filhos ao cinema, o filme não é intragável e tem a vantagem de começar e acabar bem - o meio é que é mais difícil.


Golpes Altos: Começo a preto e branco, seria óptimo se Oz fosse interpretado por outro actor. Bom final de filme, quase parece desligado do resto. Mila Kunis, és TÃO forte!

Golpes Baixos: Interpretações. Guião não vive sozinho. Realização para distrair os olhos. Demasiados efeitos, demasiadas cores, bichos demasiado feios. Uma desilusão até para quem, como eu, não tinha ilusões.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Take This Waltz


Realizadora: Sarah Polley
Argumento: Sarah Polley
Actores: Michelle Williams, Seth Rogen, Sarah Silverman

Como é que se percebe que a maior parte da carreira da Sarah Polley foi feita como actriz? Pela importância que dá aos actores neste filme... A narrativa centra-se a 100% nos personagens que ela própria criou e o filme é deles. Que dizer sobre isso? Ainda bem que assim é...

Um filme que se percebe logo de início ser diferente. Um filme sobre casamento, um filme sobre presente e futuro, um filme que coloca tudo em causa e que não resiste a dar-nos uma bela lição de vida. Podia ser presunçoso mas é lógico demais para o acharmos.

Na verdade a história é simples... Um casamento brincalhão onde 2 grandes amigos se amam é ameaçado por uma 3ª pessoa que personaliza aquilo que normalmente cria problemas nas relações: a novidade. Margot (Michelle Williams) sente-se atraída pela novidade e decide descobrir um pouco mais enquanto o seu marido Lou (Seth Rogen, que está fortíssimo!) continua envolvido nas suas receitas de frango.

O filme desenrola-se com momentos previsíveis e outros não tanto, o cuidado da realização da Sarah Polley toma por vezes proporções mais artísticas onde ela se "perde" em estética. Mas guess what? Nunca é presunçosa, nunca se esquece da história e, acima de tudo, nunca se esquece que a narrativa vive dos actores. 

A aparição da Sarah Silverman é fantástica e o diálogo que tem com a Margot na sua última cena, é o mais importante do filme, como disse, uma excelente comparação que nos serve de lição.

Este filme é mesmo uma excelente surpresa, das melhores que tive ultimamente.


"New things are shinny"
"New things get old..."


Golpes Altos: Actores, Realização, Narrativa simples e a facilidade com que nos identificamos com momentos da história.

Golpes Baixos: Full-Frontal excessivo principalmente da Sarah Silverman que tem um corpo mais feio que o de um homem! 


PS: A cena à mesa da Margot com o Luke Kirby (a novidade) é histórica!