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sexta-feira, 22 de março de 2013

Robot & Frank

Realização: Jake Schreier
Argumento: Christopher D. Ford
Elenco: Frank Langella, Peter Sarsgaard, Liv Tyler, Susan Sarandon e James Marsden

A memória é uma coisa estranha. Usamo-la a vida toda em nosso próprio proveito, descartando-a quando não nos serve um bom propósito. É "selectiva" - ou pelo menos é o que me têm dito. Invariavelmente, começa a deteriorar-se e, no fim, abandona-nos. Se pensarmos um pouco, a nossa relação com a memória não é muito diferente de qualquer outra relação íntima.

Frank é um homem solitário, e a memória começa a falhar-lhe. "Vivi uma vida colorida", explica Frank, pintada por ocasionais roubos e ocasionais tempos na prisão. A brincadeira custou-lhe uma relação com os filhos, e com a mulher. Mas Frank não parece preocupar-se. É um daqueles homens que não aprecia pessoas, e o mesmo se aplica aos que lhe são mais próximos. Por isso, quando o filho o convence a viver com um "Robot Enfermeiro", Frank não salta de alegria.

Robot & Frank é uma belíssima obra de cinema. É um filme divertido, fácil de se ver, mas com uma carga emocional latente que nos vai apanhando de surpresa até ao último segundo. O filme trata a solidão e a velhice de ânimo leve, sem nunca ser deprimente, mas mostrando-nos o que erros do passado nos podem custar no futuro. Mas mais que tudo isso, é um filme sobre a descoberta da amizade, e os efeitos do amor. Frank esqueceu a mulher quando ela o deixou. Escolheu tornar-se indiferente aos filhos porque provavelmente o lembravam dela, e começou a definhar numa casa longe da civilização. E aqui entra o Robot.

E o engraçado no filme é que nada que Frank sinta ou pense é explicado ou verbalizado, mas subentendido. Nós interpretamos Frank, deduzimos parte do seu passado e achamos compreender o que sente. E esta subjectividade do argumento - com uma fenomenal ajuda de Frank Langella, um actor que esperou a vida toda para mostrar que é óptimo - permite-nos também identificarmo-nos mais com o filme, porque deixamos nele um bocadinho de nós. Por isso pode ser que a minha leitura seja diferente da vossa - e também por isso vou evitar entrar muito dentro da história, prefiro que vejam o filme. A mim fez-me verter uma lágrima, e fez-me pensar no que é a família, e no que é o caminho que um homem tem de percorrer sozinho - quer queira, quer não.


Golpes Altos: Argumento e interpretação de Frank Langella. Ah... o regresso de Liv Tyler é bem vindo: Liv, decididamente não sais ao pai!

Golpes Baixos: A voz de Peter Sarsgaard para o Robot - quase 50 anos depois do Kubrick, e ainda ninguém aprendeu a dar uma voz mais humana à coisa?


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Golpes Indie - Jeff, Who Lives At Home

Realização: Irmãos Duplass
Argumento: Irmãos Duplass
Elenco: Jason Segel, Ed Helms e Susan Sarandon

Jeff vive em casa da mãe. Jeff fuma ganzas. Jeff tem 30 anos e é solteiro. Jeff vê e revê o filme Signs, à espera que um dia a coincidência dos copos de água se repita - mas desta vez com ele, e não com a filha de Mel Gibson. Jeff acredita piamente que tudo o que acontece na vida, acontece por uma razão e que todos temos um papel a desempenhar neste mundo. Esse papel, segundo Jeff, é determinado pelo nosso próprio percurso, pelas escolhas que fazemos, e é nossa obrigação andarmos atentos aos sinais do universo. Jeff fuma mesmo muitas ganzas.

Esta é a história de Jeff (Jason Segel), do seu irmão (Ed Helms) e da sua mãe (Susan Sarandon). São três pessoas em status-quo, à espera que algo lhes aconteça na vida, mas sem perceberem bem o quê. É a história da importância da família, e da importância da inocência e da boa-vontade, do espírito aberto, do amor e da compreensão. Sinceramente, a mensagem deste filme é das mais bonitas e profundas que tenho visto, mesmo que a forma escolhida não tenha sido brilhante.

Os irmãos Duplass (Jay e Mark) são duas figuras de relevo no panorama indie, sendo este já o seu quarto filme. Jay é o mais introvertido dos dois, mas aquele que mais contribui para a escrita dos guiões. Mark expõe-se mais - tocou numa banda de indie-rock, foi protagonista dos filmes Safety Not Guaranteed, Your Sister's Sister e da série The League. Juntos funcionam bem, com as suas diferenças e idiossincrasias. Um pouco como as duas personagens principais deste filme, estes irmãos entreajudam-se de forma a conseguirem uma maior compreensão do universo e daquilo que lhes reserva.

Jeff, Who Lives at Home começa por satirizar os losers deste mundo - os parasitas, os infelizes, os frustrados, os traídos, os coitadinhos - "You spend your whole life waiting to find out what your destiny is. And when you do, it just isn't that exciting.". Mas de repente curva, e dá-lhes uma esperança. É uma chapada de luva branca às mentes mais racionais - pede-lhes que parem, não pensem, se mantenham puros de coração e atentos aos sinais do universo. Quando derem por si, deixaram uma pegada no mundo e, se tiverem sorte, uma que nem o tempo consegue apagar.


Golpes Altos: Os três actores principais. O guião.

Golpes Baixos: A realização não é brilhante, como aliás não é a de nenhum filme dos irmãos. Falta-lhe uma melhor banda-sonora.