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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

August: Osage County



Realizador: John Wells
Argumento: Tracy Letts
Actores:  Meryl Streep, Julia Roberts, Chris Cooper, Ewan McGregor, Margo Martindale, Sam Shepard, Juliette Lewis, Benedict Cumberbatch, Dermot Mulroney, Julianne Nicholson

Provavelmente o melhor argumento do ano, com os melhores diálogos do ano e com interpretações esmagadoras. 

Há muita gente que não gosta de ver adaptadas peças de teatro ao cinema. Dizem que são pouco dinâmicas e que no fundo são pessoas a falar umas com as outras. Haverá exercício mais arriscado que esse? Eu adoro muitas peças adaptadas a Cinema e esta é sem dúvida uma delas... Os diálogos são super absorventes e eles sim com uma dinâmica estrondosa, a intensidade de algumas discussões são só equiparáveis às que vimos por exemplo no "Closer". O trabalho com os actores é exemplar e é para mim a melhor direcção de actores do ano também. 

O filme retrata uma família disfuncional e tenta discutir (literalmente) o porquê desta disfuncionalidade. Desde uma patriarca irascível que teve uma infância recheada de episódios violentos e degradantes, às suas filhas que lidaram com o impacto que essa infância teve na Mãe delas, passando por primos e tios também eles vivendo num cocktail de problemas. 

É um exercício fantástico de influências, de testes de personalidade, de choque, de violência mental e de murros e mais murros no estômago. Nada ali parece bater certo mas no final das contas parece apenas uma caricatura de tudo o que temos ou podemos ter na nossa vida ou na de quem gostamos. 

Uma Família é muito mais que discussões, que ligações físicas, que uma casa e que um crescimento mais ou menos conjunto. Uma Família é um problema constante de dinâmicas e expectativas que aqui são 90% das vezes mal geridas com repercussões épicas dignas de um drama de enorme nível. 

A Meryl Streep prova novamente que é a melhor atriz feminina da história do Cinema (não estou a exagerar, pois não?) conseguindo novamente superar-se, novamente reinventar-se e absorver em absoluto as atenções, característica exponenciada pela personagem que ela interpreta. Penso que não se importará de ver a estatueta a ir para as mãos da Cate Blanchett mas, todos vamos perceber que era novamente ela que merecia a distinção. 
As restantes interpretações são todas de enorme nível. Acho o Ewan um ator mediano que consegue neste filme manter o nível dos restantes atores... A Julia Roberts está muito acima da média e a Juliette Lewis dá como sempre muito nas vistas, só tenho pena que apareça tão pouco ultimamente.

É para mim o 2º grande filme do ano logo a seguir ao "Her". 

O Realizador é inexperiente nas andanças da 7ª arte e teve a humildade de fazer o óbvio neste filme: Entregar em absoluto as atenções aos actores.

Duas notas: 
- Adoro a cena filmada dentro do carro quando este circunda a casa onde está a personagem interpretada pela Julia Roberts. 
- A cena do jantar é das melhores e mais intensas cenas em Cinema dos últimos anos. Uma obra prima de escrita. 


Golpes Altos: Diálogos, Argumento, Interpretações e acima de tudo Meryl Streep.

Golpes Baixos: Se por um lado admiro a humildade do Realizador em dar absoluto destaque aos actores, por outro adorava ver isto filmado por um gigante que arriscasse um pouco mais. 


PS: o título em Português "Álbum de Família" é para mim dos melhores que vi. 

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Golpes de Génio - The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford

Realização: Andrew Dominik
Argumento: Andrew Dominik
Elenco: Brad Pitt, Casey Affleck, Mary-Louise Parker, Sam Rockwell, Paul Schneider, Jeremy Renner, Garret Dillahunt e Sam Shepard


Há algo místico e sobrenatural na figura do velho Oeste. O herói senta-se, pensativo. A sua figura, esguia e funesta, sugere cansaço e morte. A cobra aos seus ombros coloca-o acima do resto do mundo, um semi-Deus - 'he had a condition that was referred to as granulated eyelids, that caused him to blink more than usual - as if he found creation slightly more than he could accept'. Há algo místico em Jesse James. No filme, a sua figura destaca-se das outras, como se caminhasse num plano diferente. Vimo-lo pelos olhos da criança, do seu maior fã, do fraco, do cobarde e, ultimamente, do seu assassino Robert Ford.

O Oeste aqui é árido, abandonado, quase ultrapassado. Jesse é o seu filho, sofre entre depressões e uma incerteza se será este ainda o seu lugar no mundo. Brinca com os seus filhos, faz amor com a sua mulher, mas desligado de uma realidade que não o reconhece. Ninguém sabe quem é Jesse James, só Robert. E, talvez por isso, Jesse deposite em Robert a sua confiança, o seu zelo e a sua morte. Jesse é como o César enfurecido que vê traição em cada esquina e, no momento final, escolhe dar a Brutus a sua vida e, com isso, amaldiçoá-lo para sempre. É o preço a pagar por matar um deus. Robert nunca se torna no homem que sonhou tornar-se. É uma sombra de Jesse e traz no seu semblante o peso da cobardia. É um rato, fraco e subserviente ao lado de um gigante.

Estamos perante uma rara obra de arte. The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford transcende o cinema, transcende a literatura. Atravessa vários campos sensoriais com a suavidade e a importância de quem sabe o que é e o que quer dizer. Para mim, é um dos melhores filmes de sempre. Um injustiçado, sem dúvida. Arrisco dizer que não se fez nada nos últimos 20 anos sequer parecido a isto. Talvez por isso tenha passado uma imagem de pretensão para quem não distingue pretensão de perfeição. Eu gosto de literatura. Gosto, porque me dá coisas que o cinema não me consegue dar. Dá-me uma profundidade que é difícil atingir com imagens. Com imagem, tudo se torna mais fácil, mais conquistável. Jesse James conseguiu o impensável.

O filme conta os últimos dias do bando dos irmãos James, ou do que resta deles. Cada personagem contém dentro de si o tamanho de um filme. É maravilhoso ver como os diálogos reflectem pessoas complexas. É difícil conhecer quem passa pelo filme e, talvez por isso, seja longo e tenha a ajuda de um narrador lírico. Em termos técnicos, podia dissecar cada elemento do filme e isto tornava-se num manual de cinema 101 para futuros génios. Mas seria injusto, o filme eleva-se a uma categoria de cânone que "é logo existe". Jesse James, o bandido, descansa em paz. Fez-se justiça na forma de um filme. Não é preciso dizer mais nada.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Golpes de Génio - Paris, Texas

Realização: Wim Wenders
Argumento: Sam Shepard
Elenco: Harry Dean Stanton, Dean Stockwell e Nastassja Kinski

'I knew these people... these two people... They were in love with each other. The girl was very young, about 17 or 18 I guess. And the guy was quite a bit older. He was kind of raggedy and wild. And she was very beautiful, you know?'

Existem duas formas de perder alguém, dois tipos de amor e duas cidades chamadas Paris. O Paris de Wenders ignora as luzes e as promenades - troca-as pela solidão imensa do deserto, pelo solo por onde caminham os heróis solitários, os cowboys de coração partido. O Paris de Wenders é no Texas, e serve apenas para lembrar o herói de que existiu algo no seu passado pelo qual valeu a pena viver.

Este tornou-se um dos filmes mais marcantes da minha vida. Voltei a sentir aquele conforto adolescente de quando descobrimos uma coisa que sabemos ser nossa para sempre. Não sei se é o ambiente criado por Wenders, a imagem nostálgica de Kinski ou os diálogos de Shepard que, de tão verdadeiros, tornam-se cruéis. Sam Shepard, o guionista, é um homem raro. Actor consagrado, realizador experimental, guionista, escritor de romances, de contos e dramaturgo vencedor de um Pulitzer. Aqui, toda a iconografia do imaginário de Shepard se transforma em cinema pela mão mágica de Wenders -  e nunca se viu um casamento mais feliz.

Não me quero estender muito sobre um filme que é destruído quando desconstruído. Para mim, Paris, Texas é sobre perder quem se ama. Travis, o personagem principal, perde a mulher que ama duas vezes - a primeira, por não saber o que fazer com o seu amor e, a segunda, quando finalmente o descobre. A primeira perda é por um amor doentio, que o transtorna e o enlouquece, fazendo com que vagueie durante 5 anos sozinho pelo deserto. Travis perde a mulher que ama por não a saber amar, tal como o seu pai perdeu a mulher que amava por ter criado uma imagem dela que não correspondia à verdade - 'He said to people she was from Paris, France. He got this notion about her, this sickness..'.

Pior que não amar, é não saber o que fazer com o amor. Travis vagueia, sozinho, pelo deserto, como tantos vaguearam antes dele e muitos vaguearão depois. Porque o nosso amor, quando afastado, torna-se solitário e, citando Tennesse Williams: 'Nobody ever gets to know anybody.. We're all sentenced to solitary confinement inside our own lonely skins, for as long as we live on this earth'.