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sexta-feira, 24 de maio de 2013

Retrospectivas - Ingmar Bergman


O homem, sozinho, em frente à Morte. No meio, um tabuleiro de xadrez. 'Do you ever stop questioning?' - pergunta a Morte. O homem sorri - 'No, I never do'.

Ingmar Bergman atravessou um século, construiu uma família, rodeou-se de amigos e a sua equipa de filmagem permaneceu idêntica ao longo de toda a sua filmografia. Foi amado, respeitado e deixou no cinema uma marca inegável - pairará para sempre sobre os semblantes dos grandes cineastas vivos, como que reprovando cada passo em falso, cada falta de autenticidade, cada desvio de personalidade. No entanto, nunca houve ninguém mais imensamente solitário, mais desesperadamente duvidoso acerca do seu papel no mundo.

O realizador manteve-se fiel aos temas que considerava importantes. A vida, a morte, a família, o amor, a loucura, a solidão perante os outros e perante Deus - eram estes os fantasmas de Bergman. Aos 8 anos perdeu a fé em Deus e aos 9 trocou todos os seus brinquedos por uma Lanterna Magica. Foi assim que Bergman começou o seu processo de isolamento. Sentiu o silêncio de Deus e trocou os seus olhos pelos da lanterna, começando a viver num mundo aparte - como a personagem de Harriet Andersson em Through a Glass, Darkly, o primeiro filme da sua trilogia do Silêncio de Deus.

Depois, e ao longo de toda a sua vida, Bergman dedicou-se à procura pelas respostas nunca encontradas. Na literatura, na ciência e na religião, Bergman bebeu o que pôde mas cedo percebeu que as respostas têm que ser dadas pelo próprio, nunca por outros. Creio que a filmografia de Bergman pode ser vista como o seu próprio crescimento, a sua própria aprendizagem e o quão perto terá chegado dessas respostas. A imagem que fica, é a de um realizador sozinho, tentando captar cada imagem como se fosse um quadro, exigindo dos seus actores um diálogo infrutífero com um Deus que, cruelmente, permanece calado, observante de um Bergman receoso de que Svidrigailov estivesse certo - 'We always imagine eternity as something beyond our conception, something vast, vast! But why must it be vast? Instead of all that, what if it’s one little room, like a bath house in the country, black and grimy and spiders in every corner, and that’s all eternity is?'

Talvez seja essa a razão da insistência das aranhas na concepção bergmaniana de Deus. Estou convencido que o grande medo de Bergman era tornar-se aquilo que nunca deixou de ser - um homem religioso que, como qualquer homem religioso, vive atormentado com a ideia da perda da fé, de que as suas preces sejam feitas em vão, perdidas para sempre no vazio da nossa existência. Bergman morreu aos 89 anos, na ilha de Faro, na costa da Suécia, que apadrinhou como sua e tornou palco das suas grandes obras. Imagino-o, nos seus últimos momentos de vida, a jogar xadrez com a morte - nunca reparando nos que o rodeiam, nunca parando de se questionar.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Golpes de Génio - Smultronstället (Morangos Silvestres)

Realização: Ingmar Bergman
Argumento: Ingmar Bergman
Elenco: Victor Sjöström, Bibi Andersson e Ingrid Thulin

De todas as falhas e virtudes do Cristianismo, uma permanecerá para sempre ligada ao lado mais triste do coração humano - a redenção. Até o mais agnóstico dos cientistas, no seu leito de morte, esperaria em silêncio por uma palavra de perdão, por uma luz divina que o lavasse de todos os seus pecados. Não vale a pena negar, é apenas humano.

Ingmar Bergman é provavelmente um dos três cineastas mais importantes de sempre. Realizou mais de 60 filmes ao longo de mais de 60 anos. Nenhum realizador abordou a morte, a fé e a redenção como Bergman - e ninguém tentou depois disso. Morangos Silvestres é um filme de final de vida, uma espécie de Christmas Carol, em que Scrudge é Dr. Borg - um médico que vai numa viagem de carro pelos campos suecos, na companhia da sua cunhada e de três adolescentes que encontra pelo caminho. Em certa medida, é o primeiro Road Movie da história do cinema, mas esse género só seria oficializado 10 anos mais tarde e no continente do lado.

A viagem empreendida pelo médico eleva-se da estrada para um patamar etéreo, no qual revisita os fantasmas da sua juventude - a namorada que o trocou pelo seu irmão, a mãe fria e castradora, o seu casamento falhado, a sua vida desperdiçada. Os Morangos Silvestres de Bergman simbolizam a sua origem, a sua natureza, as suas raízes. Borg apercebe-se ao longo do filme que se tornou algo que não queria. Apesar do trabalho que deixou como médico ter criado a fama de um homem caridoso, as pessoas que lhe são mais próximas acusam-no de frieza, de cinismo e de distância - e, nesta viagem, o velho doutor vê-se ao espelho, vê de onde veio e vê aquilo que isso lhe custou.

Uma das conclusões de Borg - e talvez a mais crítica - foi uma a qual eu próprio já cheguei e aprendi a aceitar. A inevitabilidade do nosso código genético, a sinistra certeza de que os erros dos filhos já foram os erros dos pais. Borg percebe que falhou onde a sua mãe falhou mas, pior que isso, criou um filho que é uma versão piorada de si. A sua visão cínica e derrotista da vida, o seu pessimismo e fatalismo presentes em cada frase originaram um filho incapaz sequer de ter uma relação - que vê o mundo como um lugar horrendo e a morte como o tão merecido descanso.

Esta é uma das obras mais importantes do século XX, e certamente o meu "Bergman" preferido. Porque, por incrível que pareça, todos nos identificamos com um personagem de 80 anos, todos vimos os mesmos erros cometidos, e é-nos dada a oportunidade de, enquanto somos novos, dar um rumo diferente à nossa vida e à nossa personalidade para que não acabemos como Borg, um velho amargurado à espera de morrer como viveu - sozinho. Mas, curiosamente, este não é um filme pessimista (e certamente não será um filme triste, se o compararmos aos restantes do realizador). É um filme com sentido de humor e que, no final, nos oferece uma cena de beleza rara - de redenção, de luz branca a reflectir na cara de Borg e do seu último e mais belo sorriso. Se não conseguirmos fugir aos fantasmas do nosso código genético, esperemos que a redenção nos chegue como chegou ao médico para que, no minuto final, possamos sorrir como ele sorriu.


Golpes Altos: Como é que é possível alguém nos anos 50 ter esta noção moderna de realização? É incrível! O actor principal, Victor Sjostrom, foi o realizador mais importante do cinema mudo Sueco, e um dos heróis de Bergman - foi essencial para a construção de um personagem que é metade Bergman, metade Sjostrom.

Golpes Baixos: Não há nada a apontar que faça sentido num filme destes. Provavelmente estará nos 10 melhores filmes de sempre. Existem coisas que hoje poderiam ser feitas melhor mas, curiosamente, ninguém as faz.