Uma carreira banhada a sangue.
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quarta-feira, 1 de abril de 2015
quarta-feira, 20 de março de 2013
Golpes de Génio - True Romance
Realização: Tony Scott
Argumento: Quentin Tarantino
Elenco: Christian Slater, Patricia Arquette, Gary Oldman, Dennis Hopper, Brad Pitt, Val Kilmer, Christopher Walken, Samuel L. Jackson e James Gandolfini
A ficção é melhor que a vida. No mundo real não há espaço para um amor verdadeiro, para um romance a sério. No mundo real, um jovem solitário é um jovem solitário, e pode descansar a cabeça sabendo que nenhuma das suas idiossincrasias será partilhada por uma jovem loira de lábios carnudos e sorriso frágil. Já no cinema, a história é diferente.
True Romance foi escrito por Quentin Tarantino, mas realizado por Tony Scott. E porquê? Provavelmente porque Tarantino ainda estava no início da sua carreira. Tinham passado meses desde o seu début com Reservoir Dogs, e a crítica ainda estava a digerir o homem que revolucionou o cinema na década de '90. Scott, por outro lado, já estava bem lançado. Uma carreira comercial pouco ambiciosa, que encarava o cinema como entretenimento mas não se deixava envergonhar. Juntaram-se - "e tudo vai pelo melhor, no melhor dos mundos possíveis".
O filme é indubitavelmente mais propriedade de Tarantino que de Scott. Podemos vê-lo em cada diálogo, em cada linha narrativa. Cada situação mais insólita, cada personagem progressivamente mais estranha. Mas Scott dá-lhe o equilíbrio que por vezes falta a Tarantino. Ajuda-o a manter uma certa sobriedade num argumento que tem de tudo menos de sóbrio. E o resultado é uma obra-prima. Para mim é o melhor argumento de Tarantino, e certamente o melhor trabalho de Tony Scott.
O elenco já o referi em cima. É um desfile de estrelas, todas com aparecimentos de curta-duração. Confesso que, se me fosse dada a oportunidade de fazer um casting para um filme meu, dificilmente fugiria do escolhido neste filme. É uma junção dos homens mais estranhos e talentosos do cinema moderno - sendo certo que uns tiveram uma carreira de sucesso, e outros morreram na praia. E depois temos Patricia Arquette. Patricia, onde estiveste tu a minha vida toda? No Lost Highway não te dei devida atenção, e ultimamente estás gorda e inchada e perdeste todo o teu carisma. Mas aqui... que sonho. Patricia, se pudesse escolher uma mulher para mim, escolhia-te a ti, tal e qual como estás aqui. Alabama, prostituta há 4 dias mas de coração puro e cheia de amor para dar.
E assim se fazem filmes - para aquecer corações solitários e imaginações férteis. Para nos fazer sonhar que algures no mundo há um sítio onde o carro de um homem é o seu cavalo, onde os cigarros entortam para baixo e as mulheres nunca nos deixam. Onde uma loira com um decote gigante e olhos sonhadores nos aquece a cama enquanto vimos um filme de acção, e nos sussurra no ouvido as três únicas palavras que queremos ouvir: "you're so cool, you're so cool, you're so cool".
Golpes Altos: Gary Oldman com rastas e dentes de ouro? James Gandolfini com algum cabelo? Brad Pitt constantemente pedrado? Patricia Arquette constantemente nua? E, em cima de tudo isto, honestamente um dos argumentos mais bem escritos que vi na minha vida. Isto é cinema! Mais a banda sonora que é óptima, e a cena de abertura que é histórica!
Golpes Baixos: Filmes como este deixam-nos com um sorriso melancólico. E com a estranha sensação de que - como disse um certo soprano da televisão - o melhor já passou, e nós chegámos no fim.
Argumento: Quentin Tarantino
Elenco: Christian Slater, Patricia Arquette, Gary Oldman, Dennis Hopper, Brad Pitt, Val Kilmer, Christopher Walken, Samuel L. Jackson e James Gandolfini
A ficção é melhor que a vida. No mundo real não há espaço para um amor verdadeiro, para um romance a sério. No mundo real, um jovem solitário é um jovem solitário, e pode descansar a cabeça sabendo que nenhuma das suas idiossincrasias será partilhada por uma jovem loira de lábios carnudos e sorriso frágil. Já no cinema, a história é diferente.
True Romance foi escrito por Quentin Tarantino, mas realizado por Tony Scott. E porquê? Provavelmente porque Tarantino ainda estava no início da sua carreira. Tinham passado meses desde o seu début com Reservoir Dogs, e a crítica ainda estava a digerir o homem que revolucionou o cinema na década de '90. Scott, por outro lado, já estava bem lançado. Uma carreira comercial pouco ambiciosa, que encarava o cinema como entretenimento mas não se deixava envergonhar. Juntaram-se - "e tudo vai pelo melhor, no melhor dos mundos possíveis".
O filme é indubitavelmente mais propriedade de Tarantino que de Scott. Podemos vê-lo em cada diálogo, em cada linha narrativa. Cada situação mais insólita, cada personagem progressivamente mais estranha. Mas Scott dá-lhe o equilíbrio que por vezes falta a Tarantino. Ajuda-o a manter uma certa sobriedade num argumento que tem de tudo menos de sóbrio. E o resultado é uma obra-prima. Para mim é o melhor argumento de Tarantino, e certamente o melhor trabalho de Tony Scott.
O elenco já o referi em cima. É um desfile de estrelas, todas com aparecimentos de curta-duração. Confesso que, se me fosse dada a oportunidade de fazer um casting para um filme meu, dificilmente fugiria do escolhido neste filme. É uma junção dos homens mais estranhos e talentosos do cinema moderno - sendo certo que uns tiveram uma carreira de sucesso, e outros morreram na praia. E depois temos Patricia Arquette. Patricia, onde estiveste tu a minha vida toda? No Lost Highway não te dei devida atenção, e ultimamente estás gorda e inchada e perdeste todo o teu carisma. Mas aqui... que sonho. Patricia, se pudesse escolher uma mulher para mim, escolhia-te a ti, tal e qual como estás aqui. Alabama, prostituta há 4 dias mas de coração puro e cheia de amor para dar.
E assim se fazem filmes - para aquecer corações solitários e imaginações férteis. Para nos fazer sonhar que algures no mundo há um sítio onde o carro de um homem é o seu cavalo, onde os cigarros entortam para baixo e as mulheres nunca nos deixam. Onde uma loira com um decote gigante e olhos sonhadores nos aquece a cama enquanto vimos um filme de acção, e nos sussurra no ouvido as três únicas palavras que queremos ouvir: "you're so cool, you're so cool, you're so cool".
Golpes Altos: Gary Oldman com rastas e dentes de ouro? James Gandolfini com algum cabelo? Brad Pitt constantemente pedrado? Patricia Arquette constantemente nua? E, em cima de tudo isto, honestamente um dos argumentos mais bem escritos que vi na minha vida. Isto é cinema! Mais a banda sonora que é óptima, e a cena de abertura que é histórica!
Golpes Baixos: Filmes como este deixam-nos com um sorriso melancólico. E com a estranha sensação de que - como disse um certo soprano da televisão - o melhor já passou, e nós chegámos no fim.
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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Django Unchained
Realizador: Quentin Tarantino
Argumento: Quentin Tarantino
Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Kerry Washington e Leonardo DiCaprio
Não sou um fã de Tarantino, confesso. Para mim, tudo o que ele fez entre o Pulp Fiction e o Inglourious Basterds foi lixo - pura e simplesmente lixo. Jackie Brown é um mau filme de domingo à tarde - com a agravante de ter a Pam Grier como actriz principal - os Kill Bills são exercícios estéticos para nerds de anime sem qualquer valor cinematográfico, e prefiro não falar no Death Proof (para mim, não há nada mais irritante do que o conceito "é tão mau que é bom").
Dito isto, Django Unchained é uma obra-prima. Se é verdade que desisti de esperar pelo regresso do Tarantino de Reservoir Dogs e Pulp Fiction, também é verdade que estou a ver crescer um novo Tarantino - reinventado, mas sempre fiel a si mesmo.
O novo mote de Tarantino é "vingança, com estilo". Em Inglourious Basterds vimos um grupo de Judeus a encher a mala a Nazis e, imagine-se, a matar o próprio Fuhrer. "The Revenge of the Giant Head" foi o último capítulo desse filme, e aquele utilizado por Tarantino para re-escrever a História. É giro isso. Gosto da ideia! E agora vimo-lo a açoitar os cabrões dos fazendeiros sulistas que escravizaram milhares de negros antes da Guerra da Secessão. A meu ver, isto é uma premissa perfeitamente legítima para se fazer um filme. E fazê-lo com esta qualidade de diálogos, de realização, de banda-sonora, de actores, de tudo. Isto é cinema.
Desvalorizo categoricamente (como dizem os nossos políticos) toda e qualquer polémica levantada. Seja o excesso de violência que hipoteticamente resulta nos massacres de Columbine e Colorado, seja o uso constante da palavra nigger (desculpa Spike Lee, prometo que não repito) que provavelmente até está fiel à época social retratada. Desvalorizo tudo. Tarantino tem razão: arte é arte, e não deve ser misturada com política, religião, moral ou puritanismos de trazer por casa. Se for bem feita, eu gosto.
Para além de tudo isso, é óbvia a intenção de Tarantino ridicularizar os fazendeiros do Sul - ignorantes mas de "tendências francófonas" -, demonizar os negros traficantes de escravos - 'worst kinda nigger there is' - e, por outro lado, fazer as pazes com os alemães tão massacrados no seu último filme. É engraçado perceber isto. Se Christoph Waltz foi um alemão detestável nos Basterds, agora é o alemão adjuvante, sem o qual Django nunca poderia ter salvo a sua Broomhilda. Será isto por acaso? Não me parece. Tal como não é por acaso o nome Broomhilda Von Shaft estar associado a uma negra escrava. Ou Django ser comparado a Siegfried, o herói dos Nibelungos outrora utilizado para enaltecer o 3ºReich - Wagner ficaria para sempre manchado pelos Nazis, mas Tarantino salvou-o?!
Reparei ainda noutra cena de relevante ressalve. Lembram-se quando a cavalaria do KKK desce a colina gloriosamente para emboscar Django e Schultz? Ora bem, essa cena é decalcada de uma das cenas mais controversas da história do cinema. Passo a explicar. D W Griffith é considerado o pai do cinema, mas na realidade era um racista nojento do Kentucky, cuja principal obra é uma autêntica ode ao Ku Klux Klan. O que Tarantino faz, é uma cavalgada igual à de Griffith, interrompida a meio (numa espécie de "corte cómico"), e intercalada com uma das cenas mais cómicas do filme, em que os membros do KKK discutem os buracos mal-cortados nas suas máscaras. Brilhante!
E agora vou-me deixar de conteúdo político, e vou ao que interessa. É um spaghetti western reinventado. Tem Franco Nero (o primeiro Django do cinema), tem muitos tiros, muitos durões de barba rija, muita música country e, imagine-se, muito hip-hop. Com este filme, Tarantino mostrou-me que se pode fazer um grande filme, com muita piada, muito sangue e muito exagero. Basicamente, Django Unchained tem muito tudo, e não lhe falta nada.
Destaco ainda as interpretações incríveis de Leonardo DiCaprio (para quem dizia que ele fazia sempre o mesmo papel), Samuel L. Jackson (também para quem dizia que fazia sempre o mesmo papel) e Walton Goggins (parece que é um dos actores mais requisitados de 2012, e justamente).
Django Unchained é para se ver no cinema, com muitas pipocas e alguma resistência a sangue. Mas aguentem-se, porque vale a pena.
Golpes Altos: Argumento de um western clássico com um toque de autor. Kerry Washington é definitivamente um dos amores da minha vida. Banda-sonora espectacular.
Golpes Baixos: Não adoro o Jamie Foxx, mas confesso que aqui não está mal. Um bocadinho menos de sangue? Não, caga nisso. 'Tá bom assim.
Golpes Curiosos: O actor que faz de Butch é o mesmo que faz de um dos irmãos Speck (parece que o Tarantino gosta tanto dele que não o quis matar logo no início)
Argumento: Quentin Tarantino
Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Kerry Washington e Leonardo DiCaprio
Não sou um fã de Tarantino, confesso. Para mim, tudo o que ele fez entre o Pulp Fiction e o Inglourious Basterds foi lixo - pura e simplesmente lixo. Jackie Brown é um mau filme de domingo à tarde - com a agravante de ter a Pam Grier como actriz principal - os Kill Bills são exercícios estéticos para nerds de anime sem qualquer valor cinematográfico, e prefiro não falar no Death Proof (para mim, não há nada mais irritante do que o conceito "é tão mau que é bom").
Dito isto, Django Unchained é uma obra-prima. Se é verdade que desisti de esperar pelo regresso do Tarantino de Reservoir Dogs e Pulp Fiction, também é verdade que estou a ver crescer um novo Tarantino - reinventado, mas sempre fiel a si mesmo.
O novo mote de Tarantino é "vingança, com estilo". Em Inglourious Basterds vimos um grupo de Judeus a encher a mala a Nazis e, imagine-se, a matar o próprio Fuhrer. "The Revenge of the Giant Head" foi o último capítulo desse filme, e aquele utilizado por Tarantino para re-escrever a História. É giro isso. Gosto da ideia! E agora vimo-lo a açoitar os cabrões dos fazendeiros sulistas que escravizaram milhares de negros antes da Guerra da Secessão. A meu ver, isto é uma premissa perfeitamente legítima para se fazer um filme. E fazê-lo com esta qualidade de diálogos, de realização, de banda-sonora, de actores, de tudo. Isto é cinema.
Desvalorizo categoricamente (como dizem os nossos políticos) toda e qualquer polémica levantada. Seja o excesso de violência que hipoteticamente resulta nos massacres de Columbine e Colorado, seja o uso constante da palavra nigger (desculpa Spike Lee, prometo que não repito) que provavelmente até está fiel à época social retratada. Desvalorizo tudo. Tarantino tem razão: arte é arte, e não deve ser misturada com política, religião, moral ou puritanismos de trazer por casa. Se for bem feita, eu gosto.
Para além de tudo isso, é óbvia a intenção de Tarantino ridicularizar os fazendeiros do Sul - ignorantes mas de "tendências francófonas" -, demonizar os negros traficantes de escravos - 'worst kinda nigger there is' - e, por outro lado, fazer as pazes com os alemães tão massacrados no seu último filme. É engraçado perceber isto. Se Christoph Waltz foi um alemão detestável nos Basterds, agora é o alemão adjuvante, sem o qual Django nunca poderia ter salvo a sua Broomhilda. Será isto por acaso? Não me parece. Tal como não é por acaso o nome Broomhilda Von Shaft estar associado a uma negra escrava. Ou Django ser comparado a Siegfried, o herói dos Nibelungos outrora utilizado para enaltecer o 3ºReich - Wagner ficaria para sempre manchado pelos Nazis, mas Tarantino salvou-o?!
Reparei ainda noutra cena de relevante ressalve. Lembram-se quando a cavalaria do KKK desce a colina gloriosamente para emboscar Django e Schultz? Ora bem, essa cena é decalcada de uma das cenas mais controversas da história do cinema. Passo a explicar. D W Griffith é considerado o pai do cinema, mas na realidade era um racista nojento do Kentucky, cuja principal obra é uma autêntica ode ao Ku Klux Klan. O que Tarantino faz, é uma cavalgada igual à de Griffith, interrompida a meio (numa espécie de "corte cómico"), e intercalada com uma das cenas mais cómicas do filme, em que os membros do KKK discutem os buracos mal-cortados nas suas máscaras. Brilhante!
E agora vou-me deixar de conteúdo político, e vou ao que interessa. É um spaghetti western reinventado. Tem Franco Nero (o primeiro Django do cinema), tem muitos tiros, muitos durões de barba rija, muita música country e, imagine-se, muito hip-hop. Com este filme, Tarantino mostrou-me que se pode fazer um grande filme, com muita piada, muito sangue e muito exagero. Basicamente, Django Unchained tem muito tudo, e não lhe falta nada.
Destaco ainda as interpretações incríveis de Leonardo DiCaprio (para quem dizia que ele fazia sempre o mesmo papel), Samuel L. Jackson (também para quem dizia que fazia sempre o mesmo papel) e Walton Goggins (parece que é um dos actores mais requisitados de 2012, e justamente).
Django Unchained é para se ver no cinema, com muitas pipocas e alguma resistência a sangue. Mas aguentem-se, porque vale a pena.
Golpes Altos: Argumento de um western clássico com um toque de autor. Kerry Washington é definitivamente um dos amores da minha vida. Banda-sonora espectacular.
Golpes Baixos: Não adoro o Jamie Foxx, mas confesso que aqui não está mal. Um bocadinho menos de sangue? Não, caga nisso. 'Tá bom assim.
Golpes Curiosos: O actor que faz de Butch é o mesmo que faz de um dos irmãos Speck (parece que o Tarantino gosta tanto dele que não o quis matar logo no início)
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