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sexta-feira, 10 de maio de 2013

To the Wonder

Realização: Terrence Malick
Argumento: Terrence Malick
Elenco: Ben Affleck, Olga Kurylenko, Rachel McAdams e Javier Bardem


Será que sabemos o que é amar? E se soubermos, será que sabemos amar bem? Temos a consciência de que amar é um risco - que merece a hipótese de falhanço, de frustração? Então é isto, o amor?

As perguntas chegam-nos, pela voz dos personagens, ou pela nossa. Deixamo-nos absorver no absoluto de Malick - somos o artista. A sua experiência torna-se a nossa experiência; os seus receios tornam-se os nossos receios; o que o artista aprendeu, nós aprendemos com ele. To the Wonder é a obra mais autobiográfica de Malick, e isso nunca interessou tão pouco. O que distingue esta linha de cinema das outras, é o que distingue um romance de um poema. A forma estética repete-se, mas o conteúdo atravessa a alma humana de forma livre, despegada.

As imagens que nos são mostradas parecem-nos constantemente familiares, intimas. É maravilhoso como Malick consegue filmar um relvado que nos transporta à nossa infância, ou um Mont St Michel que nunca conhecemos - mas que, no entanto, nos parece familiar. Talvez sejam os sentimentos que correm no ar, permitindo-nos substituir as personagens do filme pelas nossas.

É uma obra-prima rara, feita por uma pessoa rara, para pessoas raras. Tenho pena que assim seja. Entristece-me que a falta de sensibilidade artística se tenha espalhado como um cancro pela nossa sociedade, que adjectivos como "aborrecido", "estético" ou "indefinido" sejam utilizados para descrever uma obra desta magnitude. Mas depois paro, e penso quantas pessoas são capazes de abrir um livro de poesia e sentir o que é suposto sentirem. Poucas. E talvez tenha que ser assim, e filmes como To the Wonder tenham o seu lugar guardado para o percentil mais profundo da humanidade.

Quanto ao tópico, é o amor. O amor em toda a sua complexidade, com todas as suas dúvidas, não a serem respondidas, mas a serem sossegadas, confiando que tudo funcionará para que o universo permaneça harmonizado. As relações dividem-se entre a dúvida de um amor romântico e a dúvida de um amor espiritual. Tal como questionamos a origem, a força do nosso amor por alguém, da mesma forma questionamos a força do nosso amor por algo intangível - algo superior. No fim, amor é amor e amaremos, quer queiramos quer não.


Golpes Altos: A técnica do stream of consciousness atinge aqui um nível acima do mostrado em Tree of Life. Malick está a refinar, e isso só pode ser bom sinal. Todo o filme é bonito, cada imagem, cada frase. Fica para quem o sente, não para quem o tenta perceber.

Golpes Baixos: Vou citar as últimas frases escritas do falecido crítico de cinema Roger Ebert:
"There will be many who find "To the Wonder" elusive and too effervescent. They'll be dissatisfied by a film that would rather evoke than supply. I understand that, and I think Terrence Malick does, too. But here he has attempted to reach more deeply than that: to reach beneath the surface, and find the soul in need."

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Oblivion

Realização: Joseph Kosinski
Argumento: Joseph Kosinski
Elenco: Tom Cruise, Morgan Freeman e Olga Kurylenko

O que dizer de um filme de 126 minutos em que 6 são bons, 20 são suportáveis, e 100 são uma grande trapalhada? A vontade é dizer mal, claro. Mas, por alguma razão, há qualquer coisa em Oblivion que me dá vontade de o elogiar ou, pelo menos, de suavizar a sua crítica.

A verdade é que Oblivion passa 126 minutos a tropeçar em si próprio. É um filme demasiado grande, demasiado complexo e com pouca vontade de corrigir ou explicar as suas inverossimilhanças e os seus tiros no pé. O realizador e argumentista Joseph Kosinski decidiu investir em efeitos especiais o que poupou em trabalho de guião - ou foi demasiado ambicioso ao acreditar que conseguia realizar e escrever uma mega-produção destas sozinho. Seja qual for a razão, pecou. E pecou porque Oblivion tinha tudo para ser um filme na onda de Solaris (calma.. o remake..), Moon ou Sunshine, mas acabou mais como um Total Recall (calma.. o remake..) glorificado. O ponto mais realista do filme, creio, assenta na hipótese de que, num futuro próximo, um exército de Tom Cruises invade a terra e destrói tudo o que conhecemos - ora, tendo em conta o passado demente do actor, está é uma hipótese credível, que todos devíamos ponderar com medo e cuidado.

A realização é pouco ambiciosa, parece contentar-se com o mainstream. O argumento tem falhas óbvias, os diálogos são tão fracos que fazem os três actores passarem por maus quando claramente não o são. Quem ficou bem na imagem foi a produção, o design de produção, etc.. Mas isso seria o de esperar. Mas então, porque é que me apetece desculpar o filme? Porque Oblivion é como aquelas pessoas que nos habituam à futilidade e ao falhanço a vida toda mas que, em um ou outro momento, parece-nos ver nos seus olhos algo mais - um brilho que sugere que, por baixo da capa de aparente desinteresse, vive algo mais. Porque uns olhos que olham assim escondem inteligência, mesmo que tímida ou aprisionada. Neste filme, houve um momento desses. Cruise e Kurylenko estão numa cabana, rodeados de verde, longe da fria tecnologia que assombra o resto do filme, e ela põe a tocar um vinil de Procol Harum - o êxito Whiter Shade of Pale. E, enquanto toca a música, começa a relembrá-lo de quem ele é e de quem foram, juntos, há muitos anos atrás. Isto é uma cena que me fez sorrir, e surpreendentemente, após mais de uma hora de anestesia sentimental, me fez sentir alguma coisa.

Mas não é só esta a razão que me faz perdoar um filme medíocre. A verdade é que a mensagem que Kosinski tenta passar é bonita, e é legítima. Oblivion não é sobre guerras espaciais, opressão governamental, recursos esgotados ou exércitos de Tom Cruises loucos assassinos (medo!) - na realidade, Oblivion é sobre o que faz de nós humanos, e o que faz de nós... nós. Oblivion diz, com todas as palavras, que a nossa alma é a nossa memória e que, mesmo que nos clonassem, se os nossos clones tivessem as nossas memórias, eram tão nós como nós próprios. Antes de perceber esta mensagem, tinha praticamente desistido do filme, mas houve qualquer coisa nela que me fez sorrir e pensar no diálogo entre Cruise e Kurylenko na cena de Procol Harum. Ela diz-lhe que ele lhe prometeu viverem uma vida longe de tudo e todos, morrerem no esquecimento do mundo, mas com as memórias um do outro. Se confrontarmos esta noção com o resto do filme, que defende uma morte heróica, citando passagens de Horácio e sacrificando-se pelo bem da humanidade, chegamos como que a um paradoxo. Para mim, ganha a noção de que a memória nos faz quem somos e que, quando a morte chegar, iremos bem sabendo que os Deuses nos esqueceram, mas na esperança que alguns humanos ainda se lembrem de nós.


Golpes Altos: Cena de Procol Harum. Produção. Mensagem do filme. Olga Kurylenko.

Golpes Baixos: Falta de ambição. Má escrita de argumento. Maus diálogos. Morgan Freeman (já chega, reforma-te). Exército de Tom Cruises assassínos. Olga Kurylenko não se despe nem tem sexo. 

terça-feira, 26 de março de 2013

Seven Psychopaths

Realização: Martin McDonagh
Argumento: Martin McDonagh
Elenco: Colin Farrell, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Christopher Walken, Tom Waits e Olga Kurylenko

Bem... esta vai ser difícil, mas aqui vai: Seven Psychopaths não presta. É um daqueles filmes que funcionaria, caso tivesse sido bem feito (uma espécie de Moeda Única Europeia, versão Hollywood). Mas comecemos pelo que joga a seu favor.

O elenco de luxo já seria uma grande ajuda, caso as personagens fossem minimamente decentes. Sam Rockwell e Christopher Walken estão óptimos. Têm graça e os personagens são minimamente complexos (minimamente). Os restantes "psicopatas" mais valia não existirem. O filme poderia chamar-se Two Psychopaths e aposto que funcionaria muito melhor - pelo menos não tínhamos de dividir a atenção entre sete (mas são mesmo sete? é que às tantas nem se percebe) personagens que alguns são quase figurantes.

E depois temos o Colin Farrell... Quem no seu perfeito juízo é que decide pôr este gajo a fazer de coitadinho inseguro ou - mais grave ainda - de INTELECTUAL?! Não se via um erro de casting destes desde que decidiram que o Russel Crowe dava um bom génio da matemática!

O realizador e escritor deste filme teve uma estreia bastante boa: In Bruges é um filme que cumpre os requisitos e até os supera em algumas situações. Boas personagens, boa história e boa concretização. Em Seven Psychopaths mete os pés pelas mãos. Pessoalmente, confesso já não ter grande paciência para filmes cheios de personagens e cheios de reviravoltas, plot points, twists e "a movie within a movie kind of thing" - por isso já adivinhava a banhada que poderia sair daqui.

Martin McDonagh, não sabes que "simples é o novo complicado"? Mantém-te atento às modas, já que queres fazer um filme cool. Deixa este género para aqueles anos cinzentos em que estrearam mil filmes iguais ao Smokin' Aces! Inventa, aventura-te, surpreende-me... mas, acima de tudo, se vais pôr a Olga Kurylenko num filme, ao menos despe-a só um bocadinho!


Golpes Altos: Christopher Walken, Sam Rockwell, uma realização semi-dinâmica e... não sei... acho que mais nada.

Golpes Baixos: Argumento = Lixo; Colin Farrell a fazer de mariquinhas; Olga Kurylenko com demasiada roupa; repetição de tantos filmes iguais ou parecidos... já chega.