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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Lincoln


Realização: Steven Spielberg
Argumento: Tony Kushner
Elenco: Daniel Day-Lewis, Sally Field, Tommy Lee Jones, John Hawkes, James Spader e David Strathairn


Não foi fácil formar uma opinião relevante sobre Lincoln. Dei de caras com um dos melhores elencos de sempre, com um guião brilhantemente trabalhado e com uma realização sóbria mas nem por isso menos perfeita. O que o filme me disse - essa é outra história.

Não posso deixar de me mostrar mais cativado pelo filme do que pelo homem. Abraham Lincoln foi um autodidacta, um homem com uma bússola moral perfeitamente afinada e um sentido de justiça acima do que se pedia naqueles tempos. No entanto, Lincoln não foi o líder forte que eu imaginava, o gigante de cartola que impunha respeito e cujo carisma era seguido pelas massas. Lincoln não era esse tipo de líder. Era calmo, paciente, modesto e a voz tendia a fugir-lhe para o rabo. Não fosse pela altura e o semblante cadavérico, não sei que tipo de carisma se podia esperar de um homem destes.  Mas a realidade é que o teve, e utilizou-o de uma forma ultra-racional para satisfazer a sua percepção de "bem maior".

A temática do filme é circunscrita a um determinado período histórico, de um determinado povo, num determinado contexto. Isto para dizer que é obviamente mais significativo para os EUA do que para nós - que na realidade não temos memória colectiva de escravatura, por ser um assunto há tanto deixado por terra. Por esta razão, a primeira hora de filme atingiu-me como um tanto aborrecida, e os monólogos de Lincoln referentes a uma realidade que não era a minha - o filme não estava a falar comigo, e isso adormeceu-me. Mas eis que entra a personagem de Tommy Lee Jones, Thadeus Stevens.

Stevens é, na minha opinião, a personagem mais interessante do filme (incluindo o próprio Lincoln) e aquela que mais nos prende pelo dilema que é obrigado a enfrentar, e o que resulta dele. O comic-relief vem-nos dos três Senate Whips - responsáveis pela angariação de votos democratas e republicanos - interpretados por James Spader, John Hawkes e Tim Blake Nelson. A personagem de Joseph Gordon-Levitt considero-a não só irrelevante, como despropositada, porque o filme não lhe dedica tempo suficiente para que faça sentido a sua suposta profundidade.

No fundo, não considero Lincoln um filme biográfico, mas antes um filme histórico, referente a uma situação muito concreta da história dos EUA - a abolição legal da escravatura. O interessante é a abordagem do filme no que toca à igualdade. Pessoalmente, abomino a ideia de igualdade. Considero-a não só errada como perigosa, e acho que o melhor preconceito que podemos ter é que todos os homens nascem desiguais. Dito isto, acho que todos devem ser iguais legalmente, e a todos devem ser oferecidas iguais oportunidades de vida. O que retirei deste filme é que, no direito assim como na matemática, "se duas coisas são iguais a outra coisa, então essas duas coisas são também iguais uma à outra". Mas no fundo, essa premissa foi apenas utilizado por Lincoln para conseguir algo muito concreto e prático - a abolição da escravatura - e não para publicitar uma reflexão teológica acerca da origem do homem.
E respeito o filme por isso. Por não pretender ser mais profundo do que é. É um filme histórico perfeito - Igual a tantos outros na forma, mas único pelo conteúdo.


Golpes Altos: Interpretações, argumento, guarda-roupa e cenografia.

Golpes Baixos: Discurso final fraco e péssima montagem final da vela a ser substituída pela figura de Lincoln. O que mais uma vez me prova que Spielberg é bom porque se rodeia de gajos bons - quem escreveu este argumento maravilhoso, por exemplo.