Mostrar mensagens com a etiqueta Tom Cruise. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tom Cruise. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 9 de julho de 2013

Conversas de Café - "É mais difícil fazer de gajo normal do que de gajo cheio de tiques"

O que é um bom papel?
Todos sabemos dizer de forma mais ou menos categórica que este ou aquele actor fez um bom papel neste ou naquele filme.

Tenho uma opinião muito concreta de que alguns papéis aparentemente bons são no entanto fáceis de interpretar. Papéis com muito conteúdo para ser trabalhado tecnicamente não dependem de talento puro mas sim de trabalho árduo. Longe de mim achar que são papéis menos válidos ou fracos, mas se me pedem para comparar, acho mesmo que prefiro talento puro e prefiro papéis mais discretos que não precisam de histerismos para vingar.

Assim sendo, passo aos exemplos para tornar esta discussão mais prática:

Russel Crowe:
- Excelente no "The Informer" e aborrecido no "Beautiful Mind".

A ideia passa por tentar fazer ver que dá trabalho um papel de deficiente, de autista, de gajo cheio de problemas psicológicos, de louco, mas é muito mais difícil dar nas vistas num papel menos técnico e mais "real".

Não é por acaso que toda a malta que faz papéis em filmes da 2ª Guerra ganham óscares, é que aí todos sofrem muito, todos choram muito, todos berram muito, todos têm muito por onde pegar para fazer crescer o personagem!

Difícil é fazer um papel contido, algo que só explode de vez em quando sem dar muito nas vistas. 

Claro que o "dar nas vistas" tem excepções claras no que toca a qualidade e dificuldade nos papéis... Ora o Day-Lewis não fosse o melhor actor vivo tendo sido autor no "There Will Be Blood" de uma bíblia de como representar... 

O Jack Nicholson adora sobressair, adora ser o centro do filme... Mas sabe fazê-lo como poucos evitando passar às vezes a barreira do histerismo e over the top que tantas vezes aponto ao Al Pacino ou ao Denzel Washington. Actores de quem gosto mas que estão para mim longe do Olimpo.

Para perceberem o que digo, os meus papéis preferidos do Jack Nicholson não são no Shining nem no As Good as it Gets mas sim no About Schmidt, Chinatown e claro, A flew over the cucus nest. Basta ver os filmes e perceber o quanto tem ele para se "agarrar". O papel no Shining e no As Goos as it Gets tem certamente inúmeras páginas de personagem para estudar, tanta coisa... tantos tiques, tanta loucura... eu vejo o talento do homem nos outros filmes mencionados. 

Já agora, para picar o buddy:

Tom Cruise:
- Excelente no "Eyes Wide Shut" e aborrecido no "Nascido a 4 de Julho".

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Oblivion

Realização: Joseph Kosinski
Argumento: Joseph Kosinski
Elenco: Tom Cruise, Morgan Freeman e Olga Kurylenko

O que dizer de um filme de 126 minutos em que 6 são bons, 20 são suportáveis, e 100 são uma grande trapalhada? A vontade é dizer mal, claro. Mas, por alguma razão, há qualquer coisa em Oblivion que me dá vontade de o elogiar ou, pelo menos, de suavizar a sua crítica.

A verdade é que Oblivion passa 126 minutos a tropeçar em si próprio. É um filme demasiado grande, demasiado complexo e com pouca vontade de corrigir ou explicar as suas inverossimilhanças e os seus tiros no pé. O realizador e argumentista Joseph Kosinski decidiu investir em efeitos especiais o que poupou em trabalho de guião - ou foi demasiado ambicioso ao acreditar que conseguia realizar e escrever uma mega-produção destas sozinho. Seja qual for a razão, pecou. E pecou porque Oblivion tinha tudo para ser um filme na onda de Solaris (calma.. o remake..), Moon ou Sunshine, mas acabou mais como um Total Recall (calma.. o remake..) glorificado. O ponto mais realista do filme, creio, assenta na hipótese de que, num futuro próximo, um exército de Tom Cruises invade a terra e destrói tudo o que conhecemos - ora, tendo em conta o passado demente do actor, está é uma hipótese credível, que todos devíamos ponderar com medo e cuidado.

A realização é pouco ambiciosa, parece contentar-se com o mainstream. O argumento tem falhas óbvias, os diálogos são tão fracos que fazem os três actores passarem por maus quando claramente não o são. Quem ficou bem na imagem foi a produção, o design de produção, etc.. Mas isso seria o de esperar. Mas então, porque é que me apetece desculpar o filme? Porque Oblivion é como aquelas pessoas que nos habituam à futilidade e ao falhanço a vida toda mas que, em um ou outro momento, parece-nos ver nos seus olhos algo mais - um brilho que sugere que, por baixo da capa de aparente desinteresse, vive algo mais. Porque uns olhos que olham assim escondem inteligência, mesmo que tímida ou aprisionada. Neste filme, houve um momento desses. Cruise e Kurylenko estão numa cabana, rodeados de verde, longe da fria tecnologia que assombra o resto do filme, e ela põe a tocar um vinil de Procol Harum - o êxito Whiter Shade of Pale. E, enquanto toca a música, começa a relembrá-lo de quem ele é e de quem foram, juntos, há muitos anos atrás. Isto é uma cena que me fez sorrir, e surpreendentemente, após mais de uma hora de anestesia sentimental, me fez sentir alguma coisa.

Mas não é só esta a razão que me faz perdoar um filme medíocre. A verdade é que a mensagem que Kosinski tenta passar é bonita, e é legítima. Oblivion não é sobre guerras espaciais, opressão governamental, recursos esgotados ou exércitos de Tom Cruises loucos assassinos (medo!) - na realidade, Oblivion é sobre o que faz de nós humanos, e o que faz de nós... nós. Oblivion diz, com todas as palavras, que a nossa alma é a nossa memória e que, mesmo que nos clonassem, se os nossos clones tivessem as nossas memórias, eram tão nós como nós próprios. Antes de perceber esta mensagem, tinha praticamente desistido do filme, mas houve qualquer coisa nela que me fez sorrir e pensar no diálogo entre Cruise e Kurylenko na cena de Procol Harum. Ela diz-lhe que ele lhe prometeu viverem uma vida longe de tudo e todos, morrerem no esquecimento do mundo, mas com as memórias um do outro. Se confrontarmos esta noção com o resto do filme, que defende uma morte heróica, citando passagens de Horácio e sacrificando-se pelo bem da humanidade, chegamos como que a um paradoxo. Para mim, ganha a noção de que a memória nos faz quem somos e que, quando a morte chegar, iremos bem sabendo que os Deuses nos esqueceram, mas na esperança que alguns humanos ainda se lembrem de nós.


Golpes Altos: Cena de Procol Harum. Produção. Mensagem do filme. Olga Kurylenko.

Golpes Baixos: Falta de ambição. Má escrita de argumento. Maus diálogos. Morgan Freeman (já chega, reforma-te). Exército de Tom Cruises assassínos. Olga Kurylenko não se despe nem tem sexo.