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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Still Alice


Realização: Richard Glatzer, Wash Westmoreland
Argumento: Richard Glatzer, Wash Westmoreland
Elenco: Julianne Moore, Alec Baldwin, Kristen Stewart, Kate Bosworth, Hunter Parrish, Shane McRae, Stephen Kunken

A maior proeza neste Still Alice, e o que o torna uma película de qualidade mediana e não só uma demonstração de virtuosismo de acting de Julianne Moore, é o facto das outras personagens não serem somente adendas ao texto. Não são só poeira à volta, jogadores com quem Julianne faz tabelas. São mais do que isso, são pessoas de carne e osso, a quem o Alzheimer da matriarca familiar afecta, e muito, mas que não têm outra solução senão “go on with their lives”.

O filme não flui para aquilo que seria previsível, um melodrama cliché em que a encenação de Moore, a banda-sonora e os planos nos levassem de lágrima em lágrima até à catarse final; acaba antes por narrar paulatinamente a evolução da família de Alice, as suas decisões, as suas conquistas – a fertilização in vitro de Anna e Charlie, as primeiras conquistas teatrais de Lydia e a altruísta e humana decisão de voltar a Nova Iorque para cuidar da mãe, a proposta da clínica privada em Minnesota que John não pode ignorar nem recusar –, paralelamente à evolução da doença da mãe, mulher e amiga, e da sua luta diária.

Assim, e mesmo não arrancando daqui uma peça extraordinária, Richard Glatzer e Wash Westmoreland conseguem, nesta adaptação da recente obra homónima da neurocientista Lisa Genova, que o seu filme tenha uma estrutura e uma história de verdade que alicerce a odisseia decadente de Alice. Porque quando assim não é, e a história fica reduzida à performance individual, regra geral o filme é menos filme.

Quanto a Julianne, nada do que não tenha sido dito e escrito nos últimos meses: um dos melhores desempenhos da sua carreira (e não foram poucos), conferindo à sua Alice uma aura de fragilidade e desespero contidos, sempre amparados numa razão, numa sagacidade e numa abertura de espírito que (quase) sempre se sobrepõem e que a fazem ver com clareza que aquela luta é desigual mas tem de ser travada. Quanto mais não seja para que os últimos momentos sejam menos cruéis. E é curioso que mesmo quando desiste, no momento em que tenta suicidar-se – momento esse pré-concebido pela tal racionalidade –, seja o destino a não querer que Alice sucumba perante o fatalismo e a desistência.

Golpes Altos: Julianne Moore. É uma agradável surpresa que o filme não se cinja a ela mas o seu papel é o corpo e a alma. Excelente. Kristen Stewart tem uma performance séria e consistente – gosto dela e julgo que tem futuro, vá lá perceber-se. A capacidade dos realizadores em darem “alma” às restantes personagens, em redor e em paralelo a Alice.

Golpes Baixos: Gosto muito de Alec Baldwin para determinados papéis mas aqui parece-me deslocado – a pinta de “carapau de corrida” é excessiva. A falta de ambição (ou capacidade) narrativa, na ambiguidade dos diálogos, para elevar o filme a outro nível.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Golpes Indie - What Maisie Knew

Realização: Scott McGehee e David Siegel
Argumento: Nancy Doyne e Carroll Cartwright (baseado num romance de Henry James)
Elenco: Julianne Moore, Alexander Skarsgard, Steve Coogan, Joanna Vanderham e Onata Aprile


Ter filhos não é para todos. A algumas pessoas, nunca deveria ser permitido procriar. Não quer dizer que sejam más pessoas, com más intenções ou psicopatias latentes. São, normalmente, pessoas egoístas, imaturas, demasiado focadas em si mesmo e nos seus problemas para poderem abdicar da sua existência pela existência de uma criança. Filhos de lares despedaçados raramente dão adultos equilibrados, e esta é uma verdade que falta dizer em voz alta. Se a Igreja Católica nos serviu para alguma coisa - e, admito, não serviu para quase nada - foi para nos dizer que um casamento é eterno, principalmente se envolver uma criança. A "santidade do casamento" não é obra do espírito santo, não existe para glorificar a Igreja - serve para glorificar os seus filhos, que não têm culpa que o mundo seja um lugar frio e difícil.

What Maisie Knew é um livro do escritor realista Henry James. No livro, Maisie é uma criança dividida entre dois pais divorciados, egoístas e irresponsáveis. No livro, James crítica o divórcio, o casamento, as relações, tudo. No livro, Maisie não acaba bem.
No novo filme da dupla Scott McGehee e David Siegel, a história é outra. Os realizadores decidiram manter a perspectiva do filme pelos olhos e pelo entendimento da criança. Essa abordagem está bem feita, a realização é sólida e as coisas que ficam por entender têm uma explicação simples: só sabemos o que Maisie sabe, só sentimos o que Maisie sente.

Paralelamente à história da criança, o filme é uma bonita história de amor contada em plano secundário. Não estamos habituados a isto. Uma boa história de amor é primeira página. Sempre foi. Por isso é refrescante que esta nos seja mostrada pelos olhos da criança, que vê nos seus dois novos pais uma casa que que não conhecia. Quando somos pequenos, e nos vimos apanhados em fogo cruzado entre dois adultos egoístas e irresponsáveis, ficamos com memórias negras e confusas daquilo que foi a nossa infância. Se, como Maisie, tivemos a sorte de ser adotados por duas pessoas puras e boas de coração, as nossas memórias passam a casas de praia, passeios ao pôr do sol, viagens de barco, sorrisos e muito amor. O amor é a coisa mais importante para a memória de uma criança. Nesse ponto, o filme é firme: se não o têm, não tentem ser pais.

O filme conta com um grande leque de actores, um argumento fantástico e uma realização audaz. Todos os elementos parecem funcionar em uníssono e isso traz uma harmonia fresca a um filme que, de outra forma, poderia tornar-se demasiado chato e negro. É uma lufada de ar fresco, quando temas clássicos são abordados por mentes jovens e criativas.


Golpes Altos: Adaptação original e ousada de um romance clássico. Realização sólida e inovadora. Boas interpretações. Joanna Vanderham é uma delícia.

Golpes Baixos: Gostava de ter visto uma melhor banda sonora, e uma melhor publicitação.