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sexta-feira, 12 de junho de 2015

Golpes de Génio – Jaws


Realização: Steven Spielberg
Argumento: Peter Benchley, Carl Gottlieb
Elenco: Roy Scheider, Richard Dreyfuss, Robert Shaw, Lorraine Gary

Passam exactamente quarenta anos sobre um dos filmes da minha adolescência e, mais do que isso, sobre uma das películas que mais marcas e lembranças me deixou. Ainda hoje, um adulto feito, meto o pé no Tejo e, sabendo de antemão que aquilo é um rio, por vezes não consigo evitar algum temor. É mesmo assim, tem tanto de tolo como de verdadeiro. Pelo misto de fascínio e terror pelo animal, confesso, que me leva a devorar toda a informação que consigo, entre textos e documentários, mas também por algumas imagens eternamente alojadas na mente: imagens de Jaws, de Steven Spielberg.

Página marcante e com uma incontornável importância contextual no cinema norte-americano contemporâneo, Jaws rompe com o formato de produção, promoção e distribuição vigente e assume-se como o protótipo de blockbuster de Verão, assente numa premissa de argumentos simples (recorrentemente planos até) e muita acção, tensão e adrenalina. O cinema de autor é posto de lado, os estúdios aumentam cada vez mais o seu poder através do método da grande produção para as massas e sucesso comercial imediato e o cinema de entretenimento explode enquanto força vigente.
E muito disto despoletado por Spielberg, um jovem e talentoso realizador de 29 anos ainda na sua segunda longa-metragem, que como que cria um novo género (o tal summer blockbuster) que viria no futuro a trabalhar como poucos e a reinventar estrondosamente em cada uma das décadas seguintes – Indiana Jones and the Raiders of the Lost Ark (1981) e E.T. the Extra-Terrestrial (1982); Jurassic Park (1993); A.I. Artificial Intelligence (2001) e Minority Report (2002).

O grande tubarão branco, predador alfa dos oceanos e pouco conhecido até então do grande público, foi a partir desse momento visto, duma forma obviamente errónea, como uma ameaça natural, uma espécie de máquina de matar e comer pessoas; ora, a desinformação, a ignorância e a fúria acéfala levaram a que durante décadas se procedesse a uma infame caça ao animal e a população decrescesse substancialmente em todo o globo, sendo hoje em dia uma espécie vulnerável. Essa sede de caçada, de sangue, de mortandade, tão própria nos humanos aliás, é a consequência obscura da obra. Uma consequência muito negativa e significante, entenda-se, mas que ainda assim deve ser analisada em paralelo e não pode apagar o que a obra de Peter Benchley e sobretudo a película de Spielberg significaram para o trajecto do cinema de entretenimento.

O medo e o desconhecimento da criatura que ainda assim não conseguem submeter o dever cívico e profissional de Brody, o chefe da polícia; Hooper, o biólogo marinho que pretende conhecer melhor e porventura decifrar os comportamentos do animal; e Quint, o caçador furtivo, o especialista que tem um passado que se cruza de forma sangrenta com tubarões – excelente referência ao naufrágio do navio de guerra norte-americano USS Indianapolis (CA-35) em Julho de 1945, no término da Segunda Grande Guerra, em que centenas de marinheiros perderam a vida devido a desidratação, afogamento e ataques de tubarões.
Este trio, em que sobressai um delicioso Robert Shaw como o torturado Quint, acaba por ser a única força de combate que a pequena vila de Amity tem para apresentar contra aquela aparentemente indomável e vil força animal. O seu engenho e resiliência, sempre de mãos dadas com o pânico e o terror, acabam por ser a força motriz do filme, ao som da banda-sonora minimalista de John Williams, peça sublime e tão hitchcockiana que simultaneamente nos transporta através do carácter primitivo e inexorável da gesta e cria uma sensação de imprevisibilidade e descontrolo emocional sufocantes.

Jaws, o primeiro blockbuster moderno, uma das películas que mudou as regras do jogo e ajudou a criar uma nova indústria cinematográfica em Hollywood, no fundo é uma história como tantas outras: Natureza contra o homem, predador enfrenta predador. Mas quando quem enfrentamos é uma criatura tão real, tão magnética, tão ferozmente perfeita por assim dizer, arriscamo-nos a que se torne pedra basilar do nosso imaginário mais sombrio.

Golpes Altos: Acima de tudo algo que não é imediato mas que é adquirido com o tempo: a importância histórica e cultural do filme. A banda-sonora, intemporal.

Golpes Baixos: Como referi anteriormente, a premissa da obra, descrevendo um animal selvagem como uma máquina assassina, e todas as consequências que daí advieram – Benchley chegou a lamentar ter escrito Jaws. É claro que há variadíssimas falhas técnicas (começando pelo próprio tubarão, exageradamente grande e disforme), mas não podemos esquecer que corria o ano de 1975. Já muito fez Spielberg.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Golpes de Génio – Alien


Realização: Ridley Scott
Argumento: Dan O’Bannon e Ronald Shusett
Elenco: Sigourney Weaver, Tom Skerritt, Veronica Cartwright, Harry Dean Stanton, John Hurt, Ian Holm, Yaphet Kotto

Quando dei a conhecer-me aos “ouvintes” referi que uma das poucas coisas que não suporto ver em cinema são filmes de terror gratuito. Por gratuito entenda-se plástico, sem estrutura, desenraizado. As “actividades paranormais” da vida. Ou seja, películas sem ponta por onde se pegue.

Talvez por isso tenha optado por começar por um filme de terror. Uma obra-prima do terror/sci-fi. Alien é a premissa acabada do medo no seu estado mais primitivo: o espaço (o Espaço) claustrofóbico, isolado e inescapável; a escuridão e o silêncio permanentes; o medo perturbador do que não vemos, não conhecemos e não compreendemos; a sensação de estar perante uma figuração acabada do Mal. Da máquina perfeita de matar.

O Xenomorfo, a criatura saída do imaginário de Dan O’Bannon e Ronald Shusett e concebida pela mente oculta e macabra do artista surrealista suíço H. R. Giger, ganhou ao longo dos anos, e com as inúmeras sequelas e variações, uma história por trás de si próprio, tornando-se um símbolo duma certa cultura pop.
Viríamos a saber nos filmes seguintes que havia mais formas nas sociedades xenomorfas além dos Guerreiros e que tudo se regia por um sistema de castas semelhante ao de formigas ou abelhas, onde todos trabalhavam para alimentar e proteger a Rainha. Mas isso foi só mais para a frente.

Em 1979 foi tudo novo. E impactante. Um relativamente desconhecido Ridley Scott, após ter impressionado com The Duellists, o seu filme de estreia, é convidado pelos argumentistas e o próprio Giger a realizar uma obra vanguardista com um enredo simples: num futuro longínquo a nave espacial comercial Nostromo, no regresso a casa, recebe transmissões dum planeta menor que decide investigar. Alguns tripulantes descem até ao local, fazem uma vistoria e descobrem uma outra nave espacial despenhada com um corpo alienígena morto no interior, assim como uma vasta câmara de ovos gigantes; Kane, um dos oficiais, decide investigá-los e uma criatura (facehugger) solta-se dum deles e agarra-se à sua cara. É recolhido pelos colegas e levado de volta à Nostromo e a partir daqui fez-se luz.

Daí em diante assistimos a mais de uma hora de suspense aterrador protagonizado por uma criatura que nunca vemos completamente, sendo que aí reside muito do brilhantismo de Alien: há 35 anos atrás era impossível criar um ser alienígena com a perfeição desejada, misto de beleza e ferocidade letal, pelo que para não notar-se o fato mal-amanhado usado por um jovem nigeriano de quase 2,20m de altura, Scott optou pelo melhor caminho: nunca mostrar completamente o xenomorfo, menos ainda exibi-lo.

Desde o portentoso momento da eclosão do chestbuster – uma espécie de parto violento que, juntamente com a “violação oral” do facehugger e a forma como as vítimas são mortas nos remete para um imaginário altamente sexual ao que a criatura está associada – os corpos vão perecendo um a um até ao encontro final com Ripley. E nem nessa derradeira cena – com uma Sigourney Weaver completamente desconhecida, em roupa interior, a lançar-se para o estrelato – a besta se mostra por completo. A imagem está sempre escura, densa, os movimentos da criatura são relativamente indecifráveis. A tensão é cortante. Sempre.
E nesses minutos finais eclode uma relação que perduraria na memória do cinema. De terror e não só.

Golpes Altos: O medo. A apreensão sufocante. A paranóia perante uma morte invisível, incompreensível. Em 1979.

Golpes Baixos: Ter sido tão incrível que deu origem a dezenas de sequelas ou adaptações mas nenhuma sequer se aproximou.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Golpes de Génio - Hotaru No Haka (Grave of the Fireflies)


Realizador: Isao Takahata
Argumento: Akiyuki Nosaka (novel)Isao Takahata

Longe vai o tempo em que os filmes de animação não eram 90% para crianças e 10% para adultos... Todos sabemos que os Japoneses (especialmente eles) sempre nos trouxeram uma percentagem inversa à que se vive hoje em dia quando nos vemos perante filmes de animação, este filme não é excepção e muito outros seguem a mesma regra. 

Estamos perante uma história extremamente real que nos transporta para o final da 2ª Guerra Mundial num Japão destruído pelos bombardeamentos constantes dos aliados.
Neste Japão vive um rapaz (Seita) que tem uma ligação extremamente paternal com a sua irmã mais nova (Setsuko) devido à ausência do Pai que pertence à Marinha Japonesa. A Mãe está presente mas sofre do coração, algo que "obriga" Seita a impor-se como o protector oficial de Setsuko. 

Partindo desta premissa entramos num filme carregado de sentimento e de sensibilidade. O Autor do mesmo tinha 4 anos quando a Guerra começou e 10 anos quando a mesma acabou, assim sendo, o ponto de vista que ele usa para este filme é o de 2 personagens que rondam essas mesmas idades. E ele consegue transmitir essa experiência como acho que nunca tinha visto em nenhum dos 100000000 filmes sobre a 2ª Guerra Mundial.

Vemos uma ligação quase umbilical entre os personagens, algo que se retrata até na forma como andam juntos e ele a carrega às costas ou junto ao peito. 
Takahata desvenda o final do filme logo na primeira cena, é um momento de pura inspiração porque é o primeiro momento em que ele mostra que não está ali para surpreender (no sentido foleiro da palavra), para criar twists, para fazer pensar "será que ele morre?", "será que ela morre?", "será que o Pai volta?", bla bla bla... Não interessa... Ele "limita-se" a contar uma das histórias mais bonitas que o Cinema já viu e que mesmo sabendo o final, nada nos desprende do Filme nem por um segundo.

Foi dos filmes que mais me surpreenderam de sempre... Um dos filmes que fez melhor o trabalho de campanha anti-guerra, seja ele intencional ou não.

Uma história de Amor, das mais bonitas e devastadoras contadas até hoje.


Golpes Altos: A facilidade com que a história se desenrola, não importar como acaba, ser maravilhoso tanto esteticamente como em pequenos pormenores "infantis" do enredo, a banda sonora e o seu incrível timing, tudo... mesmo tudo.

Golpes Baixos: Haver quem nunca tenha visto este filme... 

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Golpes de Génio - The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford

Realização: Andrew Dominik
Argumento: Andrew Dominik
Elenco: Brad Pitt, Casey Affleck, Mary-Louise Parker, Sam Rockwell, Paul Schneider, Jeremy Renner, Garret Dillahunt e Sam Shepard


Há algo místico e sobrenatural na figura do velho Oeste. O herói senta-se, pensativo. A sua figura, esguia e funesta, sugere cansaço e morte. A cobra aos seus ombros coloca-o acima do resto do mundo, um semi-Deus - 'he had a condition that was referred to as granulated eyelids, that caused him to blink more than usual - as if he found creation slightly more than he could accept'. Há algo místico em Jesse James. No filme, a sua figura destaca-se das outras, como se caminhasse num plano diferente. Vimo-lo pelos olhos da criança, do seu maior fã, do fraco, do cobarde e, ultimamente, do seu assassino Robert Ford.

O Oeste aqui é árido, abandonado, quase ultrapassado. Jesse é o seu filho, sofre entre depressões e uma incerteza se será este ainda o seu lugar no mundo. Brinca com os seus filhos, faz amor com a sua mulher, mas desligado de uma realidade que não o reconhece. Ninguém sabe quem é Jesse James, só Robert. E, talvez por isso, Jesse deposite em Robert a sua confiança, o seu zelo e a sua morte. Jesse é como o César enfurecido que vê traição em cada esquina e, no momento final, escolhe dar a Brutus a sua vida e, com isso, amaldiçoá-lo para sempre. É o preço a pagar por matar um deus. Robert nunca se torna no homem que sonhou tornar-se. É uma sombra de Jesse e traz no seu semblante o peso da cobardia. É um rato, fraco e subserviente ao lado de um gigante.

Estamos perante uma rara obra de arte. The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford transcende o cinema, transcende a literatura. Atravessa vários campos sensoriais com a suavidade e a importância de quem sabe o que é e o que quer dizer. Para mim, é um dos melhores filmes de sempre. Um injustiçado, sem dúvida. Arrisco dizer que não se fez nada nos últimos 20 anos sequer parecido a isto. Talvez por isso tenha passado uma imagem de pretensão para quem não distingue pretensão de perfeição. Eu gosto de literatura. Gosto, porque me dá coisas que o cinema não me consegue dar. Dá-me uma profundidade que é difícil atingir com imagens. Com imagem, tudo se torna mais fácil, mais conquistável. Jesse James conseguiu o impensável.

O filme conta os últimos dias do bando dos irmãos James, ou do que resta deles. Cada personagem contém dentro de si o tamanho de um filme. É maravilhoso ver como os diálogos reflectem pessoas complexas. É difícil conhecer quem passa pelo filme e, talvez por isso, seja longo e tenha a ajuda de um narrador lírico. Em termos técnicos, podia dissecar cada elemento do filme e isto tornava-se num manual de cinema 101 para futuros génios. Mas seria injusto, o filme eleva-se a uma categoria de cânone que "é logo existe". Jesse James, o bandido, descansa em paz. Fez-se justiça na forma de um filme. Não é preciso dizer mais nada.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Golpes de Génio - Fa yeung nin wa (In the Mood for Love)

Realização: Wong Kar Wai
Argumento: Wong Kar Wai
Elenco: Maggie Cheung e Tony Leung

 O cinema oriental de autor a regressar em força, depois da época dourada de Mizoguchi e Ozu, surge Wong Kar Wai e a sua estranha abordagem do amor. Se na era de Ozu o preto e branco limitava o artista e a sua busca da perfeição, agora a cor toma um papel preponderante e permite a realização deste filme neon-noir, entre a subtileza dos seus cinzentos e o fogo ardente dos seus vermelhos.

In the Mood for Love é a história de dois casais que vivem assombrados pelo fantasma da traição. Mas a traição de Won Kar Wai é deixada de parte, ignorada por um realizador que escolhe nunca filmar os dois elementos traidores - apenas os dois traídos. E em gestos e diálogos simples, acompanhamos uma relação que de simples tem muito pouco, enquanto os dois personagens se cruzam à entrada e saída do apartamento onde vivem com os seus pares inconspícuos, e começam uma intimidade que leva ao amor, e um amor que não leva a lado algum.

São estes filmes que fazem do cinema oriental uma arte à parte. Não são necessárias muitas palavras, nada é explícito ou dramático. Tudo parece mais controlado, ao mesmo tempo que esconde uma profundidade que só pode ser reconhecida nos olhares profundos destes dois maravilhosos actores. Enquanto isso, Kar Wai vai movimentando a sua câmara por sítios inóspitos e recantos da casa que nos dão a sensação de estar a espreitar por um mundo que não é o nosso. Por vezes é difícil perceber se este tipo de realização nos aproxima mais dos personagens, ou se é feita para nos afastar e deixá-los mexerem-se livremente, escapando aos olhares de transeuntes mais curiosos.

O filme aparece em 24º lugar na classificação da Sight and Sound dos melhores filmes de sempre e, por alguma razão, isso não me surpreende. Não sei se é pela qualidade dos actores, pela realização de mestre ou pela banda sonora repetida até deixar de ser do filme e passar a ser nossa, mas a verdade é que merece um lugar na história e uma carta verde para amantes - do cinema, e não só.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Golpes de Génio - Solaris

Realização: Andrei Tarkovsky
Argumento: Stanislaw Lem (livro)
Elenco: Donatas Banionis, Natalya Bondarchuk e Juri Jarvet

A impossibilidade de diálogo com Deus. O ser-humano feito de memórias. O amor como uma projecção. A vida como uma projecção - pouco real. São estes os temas de Solaris. Antes de ser de Tarkovsky, Solaris foi um romance de ficção científica do escritor polaco Stanislaw Lem. Mais tarde, foi também revisitado por Steven Soderbergh.

O facto mais interessante, reside na transformação que Tarkovsky fez de Solaris, tornando-o uma obra muito mais interessante que o seu homónimo literário, baseando-se mais na questão filosófica, e menos na científica ou astrológica explorada (de forma um pouco aborrecida) pelo livro. A história é acerca de um planeta que é descoberto, no qual reside um imenso oceano. Esse oceano, percebe-se ter inteligência própria, não-humana, superior. O oceano, como Deus, mantém-se uma entidade incompreendida, incontactável, e cuja omnipotência se faz sentir através da forma como sonda a mente dos cientistas que o tentam estudar.

Muito cedo no filme, qualquer tentativa de explicação científica é deixada de parte e foca-se antes na relação dos cientistas com as suas memórias. O oceano de Solaris envia aos cientistas projecções das suas memórias em carne e osso. Assim, o personagem principal é obrigado a rever a sua falecida mulher, que toma a forma humana de novo mas, curiosamente, incompleta na sua personalidade - faltam-lhe memórias, faltam-lhe características.

A ideia que Tarkovsky pretende passar é a de que as pessoas que amamos, nunca as conhecemos na realidade. Amamos projecções daquilo que achamos que elas são e, quando nos é dada uma oportunidade de materializar as nossas memórias, achamo-las incompletas. No final do filme, Tarkovsky faz algo relativamente ousado para a época - passa para o espectador o poder de julgar aquilo que vê. O espectador percebe que o personagem principal regressou, não à terra, mas a Solaris, onde vive agora rodeado das suas memórias. A questão aqui será: se nós vimos o mundo de forma limitada, qual é a diferença entre ver o mundo real ou o nosso mundo? Ou mesmo... será que o mundo, o amor e as pessoas não são apenas uma projecção de nós mesmos? No centro de tudo, nós, sozinhos com Deus. Talvez esteja a extrapolar mas, se Tarkovsky estivesse vivo, estou certo que me apoiava.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Golpes de Génio - Vivre Sa Vie

Realização: Jean-Luc Godard
Argumento: Jean-Luc Godard
Elenco: Anna Karina, Sady Rebbot e André S. Labarthe

Uma mulher deixa o seu marido e filho bebé. A mesma mulher começa a prostituir-se - a viver a sua vida. Nana (Anna Karina) não é boa nem má, inteligente nem estúpida - sentiu-se presa e libertou-se. Teve dúvidas acerca da forma como vivia a sua própria vida. Se calhar não a sentia como sua, se calhar sentia-se controlada ou se calhar estava simplesmente aborrecida. Não sabemos. O espectador acompanha esta fase da vida de Nana como um voyeur a quem só é permitido espreitar. A câmara de filmar são os nossos olhos, tentando constantemente, por entre conversas, desviando o olhar de cenas que não desejam ver, sentindo-se incomodados quando Nana nos fixa de volta, como se nos tivesse apanhado no acto. E os olhos dela são os segundos olhos mais penetrantes do cinema. Os primeiros pertencem a Maria Falconetti, a Joana d'Arc de Dreyer que Nana curiosamente (ou não) observa no cinema - ambas de lágrimas nos olhos, ambas vítimas do julgamento dos homens.

O filme é dividido em 12 episódios, nos quais acompanhamos Nana na descoberta de si própria e do que significa viver a sua vida. O mais curioso desses episódios ocorre quando Nana conhece um homem, no café, que lhe conta uma história e lhe transmite algumas lições de vida. A minha dúvida será sempre a mesma - estará o homem a falar com ela, ou comigo? Porque esta é a única cena no filme em que nos é permitido reflectir acerca do interior de Nana, acerca do interior de nós mesmos. Ela abandona tudo para recuperar o controlo sobre a sua vida, mas acaba por o delegar a terceiros, morrendo vítima da sua própria independência.

Parecem-me agora séculos desde que alguém me mostrou a cena de Nana com o homem do café. Essa mesma pessoa insistia numa velha fábula acerca de uma lagarta a quem é posta uma questão 'Como é possível andar sem ter pernas?' - e, desse dia em diante, a lagarta deixa de conseguir andar. O homem do café conta a Nana uma história semelhante na qual Porthos, o Mosqueteiro não-pensante, ao colocar uma bomba e preparando-se para fugir, se questiona acerca da sua capacidade motora e, imobilizado pela ideia, acaba por morrer. É uma coisa terrível, o pensamento. Sem ele, não haveriam palavras. Sem palavras, não haveriam mentiras, não haveriam erros. Sem pensamento, seríamos verdadeiros, simples e felizes. Mas não somos. 'E o amor?' - pergunta Nana. O homem explica que o amor só é possível depois dos 30, quando começamos a perder dúvidas, quando amadurecemos. Talvez... Até lá, vivemos a nossa vida, corremos os nossos riscos, fazemos as nossas escolhas, perdemos as nossas oportunidades. 'Ao menos no fim', dirão os mais inocentes, 'só nos podemos culpar a nós mesmos'.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Golpes de Génio - Taxi Driver

Realização: Martin Scorsese
Argumento: Paul Schrader
Elenco: Robert De Niro, Cybill Sheperd, Jodie Foster e Harvey Keitel


'The streets are extended gutters and the gutters are full of blood and when the drains finally scab over, all the vermin will drown.' - Reconhecem esta frase? Podia ser de Taxi Driver, mas não é. Pertence a um personagem criado 10 anos depois pelo cartoonista Alan Moore.

Moore, como muitos outros escritores e realizadores dos últimos 30 anos, encontrou na personagem de Bickle inspiração para o anti-herói perfeito. O psicopata solitário, o underdog, o socialmente inadaptado, o herói acidental - Travis Bickle é todos, e não é nenhum. Porque aquilo que Bickle é e aquilo em que Bickle se torna são duas coisas diferentes. No fim, fica a velha questão - será que os fins justificam os meios? E, no caso de Bickle, que fins são esses? 'Clean up the streets', diz ele. Mas porquê?

Taxi Driver é o 4º filme de Martin Scorsese, o 3º a contar de Mean Streets (ignorando o facto do début cinematográfico de Scorsese se chamar Boxcar Bertha). É também o segundo trabalho do realizador com Robert De Niro, no que seria uma gloriosa carreira a dois. Mas esta não é a única dupla que se tornou consagrada neste filme, e certamente não a mais importante. O argumentista, Paul Schrader, voltaria a juntar-se a Scorsese e De Niro para o apogeu máximo dos três artistas - Raging Bull.

Se nos desligarmos por momentos da personagem de Travis Bickle - e da maneira como monopoliza a atenção do espectador - podemos apreciar esta maravilhosa peça de cinema pela forma única como apresenta Nova Iorque. Pela cinematografia de Michael Chapman que transforma a cidade, o táxi, os esgotos e todos os seus habitantes num cenário nocturno e errante, que nos faz dar graças a Deus pelos meios onde vivemos. As luzes neon, os fumos que saem dos passeios e ocultam as putas, os drogados e os assassinos, desviando-nos a atenção da perigosidade do próprio Bickle. Quanto a este, vem de uma longa linhagem de loners e inadaptados - desde Holden Caufield a Raskólnikov - que culpam a sociedade pelo seu ostracismo, acabando por ser tornar um produto dela.

Assim, Bickle caminha pelas ruas, julgando a cidade à sua volta de olhar obsessivo, julgando-se capaz de salvar uma prostituta mas ameaçando matar um inocente. A moralidade de Bickle é a moralidade de um psicopata, e recuso qualquer teoria que venha tentar provar o contrário. Temos um filtro que utilizamos para ver o mundo. Podemos escolher o ângulo da nossa reportagem, podemos escolher o que filmar e o que deixar de fora. Bickle via a podridão dos esgotos de Nova Iorque porque estava ele próprio podre. Mas a questão final fica sempre - bom, mau ou vilão? Seja qual for, a imagem que fica de Travis Bickle é a de um homem em frente ao espelho - 'Are you talkin' to me?' - e a sua própria triste conclusão - 'You must be, 'cause I'm the only one here...'.


segunda-feira, 20 de maio de 2013

Golpes de Génio - Paris, Texas

Realização: Wim Wenders
Argumento: Sam Shepard
Elenco: Harry Dean Stanton, Dean Stockwell e Nastassja Kinski

'I knew these people... these two people... They were in love with each other. The girl was very young, about 17 or 18 I guess. And the guy was quite a bit older. He was kind of raggedy and wild. And she was very beautiful, you know?'

Existem duas formas de perder alguém, dois tipos de amor e duas cidades chamadas Paris. O Paris de Wenders ignora as luzes e as promenades - troca-as pela solidão imensa do deserto, pelo solo por onde caminham os heróis solitários, os cowboys de coração partido. O Paris de Wenders é no Texas, e serve apenas para lembrar o herói de que existiu algo no seu passado pelo qual valeu a pena viver.

Este tornou-se um dos filmes mais marcantes da minha vida. Voltei a sentir aquele conforto adolescente de quando descobrimos uma coisa que sabemos ser nossa para sempre. Não sei se é o ambiente criado por Wenders, a imagem nostálgica de Kinski ou os diálogos de Shepard que, de tão verdadeiros, tornam-se cruéis. Sam Shepard, o guionista, é um homem raro. Actor consagrado, realizador experimental, guionista, escritor de romances, de contos e dramaturgo vencedor de um Pulitzer. Aqui, toda a iconografia do imaginário de Shepard se transforma em cinema pela mão mágica de Wenders -  e nunca se viu um casamento mais feliz.

Não me quero estender muito sobre um filme que é destruído quando desconstruído. Para mim, Paris, Texas é sobre perder quem se ama. Travis, o personagem principal, perde a mulher que ama duas vezes - a primeira, por não saber o que fazer com o seu amor e, a segunda, quando finalmente o descobre. A primeira perda é por um amor doentio, que o transtorna e o enlouquece, fazendo com que vagueie durante 5 anos sozinho pelo deserto. Travis perde a mulher que ama por não a saber amar, tal como o seu pai perdeu a mulher que amava por ter criado uma imagem dela que não correspondia à verdade - 'He said to people she was from Paris, France. He got this notion about her, this sickness..'.

Pior que não amar, é não saber o que fazer com o amor. Travis vagueia, sozinho, pelo deserto, como tantos vaguearam antes dele e muitos vaguearão depois. Porque o nosso amor, quando afastado, torna-se solitário e, citando Tennesse Williams: 'Nobody ever gets to know anybody.. We're all sentenced to solitary confinement inside our own lonely skins, for as long as we live on this earth'.


terça-feira, 14 de maio de 2013

Golpes de Génio - Tokyo Story

Realizador: Yasujiro Ozu
Argumento: Yasujiro Ozu
Elenco: Chishû Ryû, Chieko Higashiyama e Setsuko Hara


Há algo no conceito de família que nos remete para um passado que nunca conhecemos. Abraçamos inocentemente um falso saudosismo pelos "bons velhos tempos", em que pais e filhos partilhavam mais que silêncios incómodos e trivialidades à hora do jantar. Começo a acreditar que talvez esses tempos nunca tenham existido, que talvez sejam uma projecção idealista do que achamos que a família deveria ser.

Yasujiro Ozu é o mais importante realizador oriental e definitivamente um dos meus favoritos. A simplicidade dos seus filmes caminha lado-a-lado com a profundidade dos seus temas. Nada é passível de ser interpretado em Ozu. Não existem metáforas, hipérboles ou sinédoques. Nenhum movimento de câmara é intelectualizado, nenhum plano passa uma mensagem. Ozu filma com a tranquilidade e a sabedoria de um mestre milenar. Deixa-nos frequentemente em estados emotivos que não conseguimos bem compreender, porque não são ocidentais - uma lágrima em vez de um ataque de choro; um aperto no coração em vez de um sorriso; uma calma interior em vez de uma lição. Ozu intercala todas as suas histórias com pillow shots de paisagens que funcionam como gêngibre num prato de sushi - algo que pomos na boca, entre cada rolo, para nos deixar assentar o que comemos antes, e preparar para o que vem depois.

Todos os filmes de Ozu são o mesmo, e todos são únicos. Parecem confundir-se, repetir-se como haikus cujo conteúdo varia em formas simples e idênticas. De todos eles, Tokyo Story é possivelmente o que chega mais perto da perfeição. E parece ser esse o objectivo de Ozu - a perfeição. O tema é a família, a distância entre gerações, a inevitabilidade da velhice que nos afasta da velocidade da sociedade, nos coloca num mundo à parte. Os dois personagens principais de Tokyo Story são os avós que decidem visitar os filhos e os netos em Tokyo, afastando-se da pacífica vila onde residem, apenas para descobrirem uma família e uma sociedade que não tem tempo para eles, que os considera um entrave. Uma das cenas de maior beleza e profundidade do filme, dá-se quando o casal de idosos observa Tokyo de um miradouro e, partilhando o silêncio confortável que anos de convívio lhes permitem, deixam fugir uma triste confissão 'Que cidade tão grande, esta. Se nos perdêssemos um do outro, talvez nunca mais nos conseguíssemos encontrar'. Vou deixar-vos assim, sem desvendar mais de um filme que é mais que obrigatório, é necessário.

Quando vejo e revejo este filme, pareço aprender sempre qualquer coisa que esqueço logo a seguir. É algo sobre o amor, sobre a vida e sobre a família. Algo que talvez não esteja preparado para saber, algo que a experiência se encarregará de me ensinar com o passar do tempo, ainda que certamente de forma menos calma e menos bonita.

domingo, 5 de maio de 2013

Golpes de Génio - Synecdoche, New York

Realização: Charlie Kaufman
Argumento: Charlie Kaufman
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Samantha Morton, Catherine Keener, Diane West e Michelle Williams

Nova Iorque é o palco para a sinédoque de Charlie Kaufman - argumentista de Adaptation, Being John Malkovich e Eternal Sunshine of the Spotless Mind. E uma sinédoque, lembram-se do que é? É uma figura de estilo, na qual se exprime um todo por uma parte. E é precisamente assim que o filme funciona. A parte é Nova Iorque e o personagem principal, o todo somos nós e o mundo.

 Seymour Hoffman é um encenador neurótico a quem é atribuída uma bolsa milionária para produzir uma nova peça - a quem é dada uma oportunidade para escrever a sua obra-prima. E é aqui que entra a sinédoque. Porque a peça mistura-se com filme, que se mistura com a vida, que se mistura com a peça. De repente, temos personagens a fazer de personagens a fazer de personagens e todas percebem onde estão e o papel que é suposto desempenharem - mas será que isso chega?

Na vida, escolhemos o tipo de pessoa que queremos ser, a vida que queremos levar e definimos papeis para as pessoas que amamos, para as pessoas que nos são importantes. Rotulamo-las, tornando-as personagens secundárias de um filme que, em último caso, é sempre sobre nós. Este filme imita a vida. A personagem de Seymour Hoffman atribui papeis às pessoas que ama, como nós fazemos ao longo do tempo. Passa 20 anos a guiar as pessoas da sua vida numa peça que não tem público - que ninguém está a ver. Esta é deprimente conclusão deste filme. Todos nós vivemos na esperança que alguém repare no que fazemos, mesmo quando estamos sozinhos. Os papeis que damos aos outros nem sempre são interpretados da forma correcta, e depois desiludimo-nos. Desiludimo-nos porque não amamos os outros, amamos os papeis que lhes damos e portanto amamos projecções de nós próprios. Parem-me se estiver a ficar confuso. A confusão pode vir a meio do filme, e um segundo visionamento é recomendável. Mas tudo começa a fazer sentido quando o encenador percebe que o truque para fazer a sua grande peça é simples - dar a todas as personagens um papel principal. Então onde está o erro? O erro está em ser ele a atribuí-lo.

Em Synecdoche, New York, Charlie Kaufman encaminha-nos por uma mega peça de teatro, em que o palco é Nova Iorque, em que todos têm um papel mas um papel desenhado por ele. E o resultado é uma cidade vazia, uma peça sem público, uma vida de desilusões e sonhos perdidos e, no centro de tudo isto: nós, sozinhos, velhos e conscientes de que a vida que construímos é falsa - uma peça de teatro egoísta, feita só para nós. Porque o público não aparece, os actores secundários têm uma peça só deles e os figurantes, os transeuntes, esses... somos nós?


Peço desculpa se o texto está demasiado confuso, mas o filme assim o exige.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Golpes de Génio - Wild River

Realização: Elia Kazan
Argumento: Paul Osborn
Elenco: Montgomery Clift e Lee Remick

Há uma certa justiça poética no curso de um rio. Separa vidas, segue caminhos, deixa que a natureza corra pelo meio da civilização como uma última palavra de Deus sobre o destino da humanidade. Com a evolução, o Homem aprendeu a amansar a força dos rios, a criar barragens para os controlar - mas há algo de pouco natural na contenção de um rio, como se estivéssemos a impedir a natureza de fazer o seu trabalho.

Poucos realizadores sobreviveram à passagem do filme a preto e branco para o filme a cores. Ainda menos foram bem sucedidos nos dois campos. Elia Kazan é um dos maiores nomes do cinema mundial e certamente um dos seus grandes peregrinos. Kazan reinventou o cinema, reinventou os actores, os diálogos, os planos e os temas. Antes de Kazan, as histórias de amor dos anos 50 de Hollywood eram secas, pouco profundas, pouco reais. As relações de Kazan mostraram-nos as imperfeições do amor, as falhas humanas, os desejos ardentes e o seu inevitável fim.

Em Wild River, Kazan conseguiu conciliar dois temas na mesma obra, deixando-nos divididos sobre qual o mais importante. Wild River é um filme sobre a destruição causada pelo Tennessee River na década de '20, e os esforços do Governo para o controlar, comprando as terras à sua volta para que se pudesse construir uma barragem. Este é o contributo político e histórico do filme, mas a mensagem ultrapassa-o. Montgomery Clift é o homem enviado pelo Estado para comprar a última parcela de terra restante, um pequeno ilhéu no meio do rio, cuja dona recusa a abandonar. A dona é uma velhinha que começamos por odiar, por considerar um entrave à evolução - à civilização. Mas mais tarde compreendemos que é mais que isso. O que a velhinha acredita, é que o que é selvagem assim deve permanecer, e as vidas que a natureza tira, à natureza pertencem. Prefere arriscar a sua sorte, mas manter a sua dignidade. 'I like wild things Mr. Glover. God intended them that way'.

Mr. Glover (Montgomery Clift) respeita e admira a velhinha, apaixona-se pela sua neta (Lee Remick), e o resto da história é uma fogosa e doentia paixão que consome os dois personagens, e que vimos desvendar-se em frente dos nossos olhos pela força de diálogos reais, diálogos credíveis, de pessoas complexas, pessoas perturbadas - pessoas. O trabalho de argumento é notável, mas é a técnica trazida por Kazan - o Method Acting - que torna as situações tão imperfeitas, tão sinceras.

Wild River é um filme sobre imperfeições. Sobre o equilíbrio que delas advém, sobre a justiça que praticam. Lutar contra a força de um rio é tão inútil como a luta contra a evolução do Homem. E o amor corre selvagem, sem que se compreenda o que o pára ou o que o motiva, confiando que o que tiver que ser, naturalmente, será.


Golpes Altos: O cinema que imita a vida, sem estereótipos nem adornos. Trabalho de um grande mestre do cinema. Mallick veio aqui beber, e muito.

Golpes Baixos: Vou deixar de fazer Golpes Baixos em Golpes de Génio...

terça-feira, 16 de abril de 2013

Golpes de Génio - Smultronstället (Morangos Silvestres)

Realização: Ingmar Bergman
Argumento: Ingmar Bergman
Elenco: Victor SjöströmBibi Andersson e Ingrid Thulin

De todas as falhas e virtudes do Cristianismo, uma permanecerá para sempre ligada ao lado mais triste do coração humano - a redenção. Até o mais agnóstico dos cientistas, no seu leito de morte, esperaria em silêncio por uma palavra de perdão, por uma luz divina que o lavasse de todos os seus pecados. Não vale a pena negar, é apenas humano.

Ingmar Bergman é provavelmente um dos três cineastas mais importantes de sempre. Realizou mais de 60 filmes ao longo de mais de 60 anos. Nenhum realizador abordou a morte, a fé e a redenção como Bergman - e ninguém tentou depois disso. Morangos Silvestres é um filme de final de vida, uma espécie de Christmas Carol, em que Scrudge é Dr. Borg - um médico que vai numa viagem de carro pelos campos suecos, na companhia da sua cunhada e de três adolescentes que encontra pelo caminho. Em certa medida, é o primeiro Road Movie da história do cinema, mas esse género só seria oficializado 10 anos mais tarde e no continente do lado.

A viagem empreendida pelo médico eleva-se da estrada para um patamar etéreo, no qual revisita os fantasmas da sua juventude - a namorada que o trocou pelo seu irmão, a mãe fria e castradora, o seu casamento falhado, a sua vida desperdiçada. Os Morangos Silvestres de Bergman simbolizam a sua origem, a sua natureza, as suas raízes. Borg apercebe-se ao longo do filme que se tornou algo que não queria. Apesar do trabalho que deixou como médico ter criado a fama de um homem caridoso, as pessoas que lhe são mais próximas acusam-no de frieza, de cinismo e de distância - e, nesta viagem, o velho doutor vê-se ao espelho, vê de onde veio e vê aquilo que isso lhe custou.

Uma das conclusões de Borg - e talvez a mais crítica - foi uma a qual eu próprio já cheguei e aprendi a aceitar. A inevitabilidade do nosso código genético, a sinistra certeza de que os erros dos filhos já foram os erros dos pais. Borg percebe que falhou onde a sua mãe falhou mas, pior que isso, criou um filho que é uma versão piorada de si. A sua visão cínica e derrotista da vida, o seu pessimismo e fatalismo presentes em cada frase originaram um filho incapaz sequer de ter uma relação - que vê o mundo como um lugar horrendo e a morte como o tão merecido descanso.

Esta é uma das obras mais importantes do século XX, e certamente o meu "Bergman" preferido. Porque, por incrível que pareça, todos nos identificamos com um personagem de 80 anos, todos vimos os mesmos erros cometidos, e é-nos dada a oportunidade de, enquanto somos novos, dar um rumo diferente à nossa vida e à nossa personalidade para que não acabemos como Borg, um velho amargurado à espera de morrer como viveu - sozinho. Mas, curiosamente, este não é um filme pessimista (e certamente não será um filme triste, se o compararmos aos restantes do realizador). É um filme com sentido de humor e que, no final, nos oferece uma cena de beleza rara - de redenção, de luz branca a reflectir na cara de Borg e do seu último e mais belo sorriso. Se não conseguirmos fugir aos fantasmas do nosso código genético, esperemos que a redenção nos chegue como chegou ao médico para que, no minuto final, possamos sorrir como ele sorriu.


Golpes Altos: Como é que é possível alguém nos anos 50 ter esta noção moderna de realização? É incrível! O actor principal, Victor Sjostrom, foi o realizador mais importante do cinema mudo Sueco, e um dos heróis de Bergman - foi essencial para a construção de um personagem que é metade Bergman, metade Sjostrom.

Golpes Baixos: Não há nada a apontar que faça sentido num filme destes. Provavelmente estará nos 10 melhores filmes de sempre. Existem coisas que hoje poderiam ser feitas melhor mas, curiosamente, ninguém as faz.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Golpes de Génio - Fantastic Mr. Fox

Realização: Wes Anderson
Argumento: Wes Anderson e Noah Baumbach (baseado na obra de Roald Dahl)
Elenco: George Clooney, Meryl Streep, Bill Murray, Jason Schwartzman e Owen Wilson

Há uma fábula antiga acerca de um escorpião que quer atravessar um rio e de uma rã a quem pede ajuda. Suponho que já a tenham ouvido. A rã começa por negar, afirmando que o escorpião a vai picar. O escorpião constrói um argumento sólido e explica que, caso o faça, também ele morrerá afogado. A rã pensa um pouco, e acaba por aceitar transportá-lo para a outra margem. A meio do caminho, o escorpião pica-a e a rã, afogando-se em veneno, pergunta-lhe confusa 'Porque é que me picaste? Vamos morrer os dois...', ao que o escorpião responde num silvo triste 'Eu sei... mas é a minha natureza'.

Fantastic Mr. Fox é uma obra rara. É um filme de animação, em stop motion, maravilhosamente divertido e assustadoramente existencialista. É um filme cuja profundidade vai espreitando por entre diálogos de uma intensidade perturbadora e que aborda o tema mais trágico da natureza humana (e animal) - a sua inevitabilidade. Fox promete à sua mulher grávida que nunca mais lhe mente, nunca mais a engana, nunca mais rouba galinhas, patos, gansos ou qualquer outro tipo de ave. Promete-lhe que está pronto para assentar. Ser pai. Ser marido. Fox promete à mulher que vai deixar de ser ele mesmo.

Este é um filme sobre um animal selvagem que tenta deixar de o ser. Tenta humanizar-se, criar responsabilidades. É isso que é pedido de todos nós, certo? Que assentemos, criemos raízes, ganhemos responsabilidades e deixemos de agir por impulso, por instinto - por natureza. Os problemas de Mr Fox não serão compartilhados por toda a gente. Há vários tipos de pessoas no mundo, e nem todas têm uma natureza desviante. Essas não vão compreender a tragédia do filme, não vão aguentar as lágrimas no silêncio que se faz quando a Sra Fox lhe pergunta porque é que mentiu e ele - apercebendo-se nesse preciso momento da inevitabilidade da sua própria natureza - lhe responde: 'because I'm a wild animal'.

É difícil falar sobre um filme que aparenta ser tão divertido e simples mas está recheado de sabedoria, de tristeza e de sensibilidade. A viagem que Fox empreende vai fazê-lo aceitar-se como é, mostrar-se como é, e conhecer também a natureza dos que o rodeiam. Por baixo dos fatos de advogado, das paisagens impressionistas, dos pais de família, dos canalizadores, cozinheiros, professores... estão animais selvagens. Animais selvagens que, em último caso, podem contar apenas com o seu instinto para fazerem o que os animais selvagens acima de tudo fazem - sobreviver. E Mr. Fox lembra-os disso. Lembra-os que o seu nome em latim os remete para um estado mais primitivo da evolução. Lembra-os de quem são.

E, ultimamente, é apenas quando aceitamos quem somos - as nossas forças e as nossas fraquezas, o que somos e o que gostaríamos de ser - que perdemos o medo e começamos a ser felizes. Fox confronta a sua fobia de lobos quando, no final, tem um encontro com um. Esta é uma cena maravilhosa, intensa, de uma beleza demasiado estranha para ser explicada. Quando Fox se aceita como um animal selvagem, aceita também os outros. O rato vilão que sonhava com cidra, o lobo que fecha a mão e a levanta, como que dizendo 'somos o mesmo, eu e tu'.

Somos estranhos, todos nós. Vivemos segundo as nossas próprias excentricidades e, enquanto uns limitam a sua natureza para que possam viver em sociedade, outros abraçam-na e confiam que, um dia, a sorte vai permitir-lhes serem felizes com as armas que têm. Este filme lembra-nos que é pela nossa estranha natureza que somos quote/unquote... fantásticos.


Golpes Altos: Wes Anderson.

Golpes Baixos: Pior cartaz, pior campanha de marketing de sempre. Mascaram uma obra-prima do cinema de um filme para a família. 

segunda-feira, 25 de março de 2013

Golpes de Génio - La Notte

Realização: Michelangelo Antonioni
Argumento: Michelangelo Antonioni
Elenco: Marcello Mastroianni, Jeanne Moreau e Monica Vitti

O dia serve de prelúdio. Giovanni e Lidia caminham em direcções opostas, numa cidade triste feita de ruas despidas e reflexos esbatidos. Antonioni filma este dia na cidade, como se esta fosse demasiado alta para o casal se encontrar e demasiado estreita para poderem respirar. Dá uma constante sensação de labirinto. Um labirinto de cimento que sufoca duas pessoas cujos melhores anos já passaram há muito.

Giovanni é um passivo, um resignado que evita olhar para Lidia, com medo que o olhar possa sugerir uma intimidade para ele perdida. Lidia é um enigma (pelo menos para mim, que sou homem). Está numa crise. Percebe a indiferença do marido e passa o filme todo a vaguear sozinha - à espera de encontrar algo. No principio, pareceu-me serem um casal em sítios diferentes da relação, mas depois percebi que não. São apenas duas pessoas diferentes no mesmo sítio - onde, nas palavras de Giovanni, já não têm ideias.. só memórias.

O dia acaba, e o casal decide ir a uma festa. É nesta festa que tudo se passa - o que interessa é a noite. E, quando a noite acaba, o filme acaba com ela. La Notte segue a tradição do cinema italiano dos anos 60/70. É um filme alegórico, mas realista. Vale pelos diálogos brilhantes, e pela abordagem seca que faz do amor e da vida. A grande diferença entre La Notte e o La Dolce Vita é que, enquanto este último fala de um homem, La Notte divide a sua atenção entre os dois elementos do casal, dando-nos oportunidade de aprender com os dois, de analisar a relação dos dois, espelhá-la na nossa própria experiência de vida, e retirar algum ensinamento.

O filme insere-se na 'Trilogia da Alienação' de Antonioni. É o segundo, precedido pelo L'Avventura e precedendo L'Eclisse. A crítica recebeu mal o filme, muito provavelmente porque o mundo ainda não estava preparado para ver este tipo de cinema. Actualmente, é uma lufada de ar fresco ver um filme com mais de 50 anos que nos parece mais contemporâneo que os do nosso tempo.

O filme não é bem-disposto, porque o tema em si é pesado e os personagens demasiado realistas. Mas segue a tradição italiana dos comic reliefs por meio dos diálogos subtis e inteligentes. E eu evito utilizar esta palavra para caracterizar filmes. "Inteligente" soa sempre a pretensioso. Mas na verdade não existe outra forma de o colocar. É um filme inteligentemente escrito, que nos leva a sentirmo-nos menos sozinhos no mundo. Afinal não estou assim tão desalinhado, non é vero Michelangelo?


Golpes Altos: As personagens, os diálogos, a realização - A REALIZAÇÃO!!! - a cinematografia, a edição, a banda sonora... oh well... ah e a cena final... que cena final!

Golpes Baixos: Errr...

quarta-feira, 20 de março de 2013

Golpes de Génio - True Romance

Realização: Tony Scott
Argumento: Quentin Tarantino
Elenco: Christian Slater, Patricia Arquette, Gary Oldman, Dennis Hopper, Brad Pitt, Val Kilmer, Christopher Walken, Samuel L. Jackson e James Gandolfini

A ficção é melhor que a vida. No mundo real não há espaço para um amor verdadeiro, para um romance a sério. No mundo real, um jovem solitário é um jovem solitário, e pode descansar a cabeça sabendo que nenhuma das suas idiossincrasias será partilhada por uma jovem loira de lábios carnudos e sorriso frágil. Já no cinema, a história é diferente.

True Romance foi escrito por Quentin Tarantino, mas realizado por Tony Scott. E porquê? Provavelmente porque Tarantino ainda estava no início da sua carreira. Tinham passado meses desde o seu début com Reservoir Dogs, e a crítica ainda estava a digerir o homem que revolucionou o cinema na década de '90. Scott, por outro lado, já estava bem lançado. Uma carreira comercial pouco ambiciosa, que encarava o cinema como entretenimento mas não se deixava envergonhar. Juntaram-se - "e tudo vai pelo melhor, no melhor dos mundos possíveis".

O filme é indubitavelmente mais propriedade de Tarantino que de Scott. Podemos vê-lo em cada diálogo, em cada linha narrativa. Cada situação mais insólita, cada personagem progressivamente mais estranha. Mas Scott dá-lhe o equilíbrio que por vezes falta a Tarantino. Ajuda-o a manter uma certa sobriedade num argumento que tem de tudo menos de sóbrio. E o resultado é uma obra-prima. Para mim é o melhor argumento de Tarantino, e certamente o melhor trabalho de Tony Scott.

O elenco já o referi em cima. É um desfile de estrelas, todas com aparecimentos de curta-duração. Confesso que, se me fosse dada a oportunidade de fazer um casting para um filme meu, dificilmente fugiria do escolhido neste filme. É uma junção dos homens mais estranhos e talentosos do cinema moderno - sendo certo que uns tiveram uma carreira de sucesso, e outros morreram na praia. E depois temos Patricia Arquette. Patricia, onde estiveste tu a minha vida toda? No Lost Highway não te dei devida atenção, e ultimamente estás gorda e inchada e perdeste todo o teu carisma. Mas aqui... que sonho. Patricia, se pudesse escolher uma mulher para mim, escolhia-te a ti, tal e qual como estás aqui. Alabama, prostituta há 4 dias mas de coração puro e cheia de amor para dar.

E assim se fazem filmes - para aquecer corações solitários e imaginações férteis. Para nos fazer sonhar que algures no mundo há um sítio onde o carro de um homem é o seu cavalo, onde os cigarros entortam para baixo e as mulheres nunca nos deixam. Onde uma loira com um decote gigante e olhos sonhadores nos aquece a cama enquanto vimos um filme de acção, e nos sussurra no ouvido as três únicas palavras que queremos ouvir: "you're so cool, you're so cool, you're so cool".


Golpes Altos: Gary Oldman com rastas e dentes de ouro? James Gandolfini com algum cabelo? Brad Pitt constantemente pedrado? Patricia Arquette constantemente nua? E, em cima de tudo isto, honestamente um dos argumentos mais bem escritos que vi na minha vida. Isto é cinema! Mais a banda sonora que é óptima, e a cena de abertura que é histórica!

Golpes Baixos: Filmes como este deixam-nos com um sorriso melancólico. E com a estranha sensação de que - como disse um certo soprano da televisão - o melhor já passou, e nós chegámos no fim.

terça-feira, 12 de março de 2013

Golpes de Génio - Akira

Realização: Katsuhiro Ôtomo
Argumento: Katsuhiro Ôtomo
Elenco: Nozomo Sazaki, Mami Koyama e Mitsuo Iwata

Um futuro próximo. Fim da 3ª Guerra Mundial. Neo-Tokyo está em estado de sítio. A cidade torna-se palco de estranhas experiências governamentais. Gangues de mota lutam entre si, alheios à acção perniciosa de um Governo liderado por militares e cientistas. A nossa atenção é dividida entre dois amigos - herói e anti-herói - separados por forças que ultrapassam a sua própria compreensão.

Akira,  filme de 1987, permanece uma das mais actuais obras cinematográficas que eu alguma vez vi. Sim, é de animação. Sim, é japonês. E sim, é antigo. Estas três características chegariam para acharmos que nada poderia estar mais longe da nossa realidade - e assim se vê a qualidade de uma obra.

O trunfo, dizem os especialistas do anime, reside no facto de o realizador do filme ser também o criador da banda-desenhada. Calculo que, para os fãs do comic, isso seja maravilhoso. A mim não me disse muito quando, no passado sábado, decidi dar-lhe uma oportunidade e me dirigi ao São Jorge, em Lisboa, para assistir à reposição deste clássico junto dos seus fiéis seguidores. Não me levem a mal, não acho que seja uma forma de arte menor nem nada do género - só nunca foi a "minha cena". Mas, meu Deus... Akira provou-me errado.

Ao longo dos 120 minutos, tive consecutivos flashbacks de filmes de Hollywood que - agora sim - percebo onde foram beber inspiração. Nunca descansei a vista, nunca me aborreci, nunca parei de me maravilhar com os grafismos. Abri e fechei a boca, arregalei os olhos em espanto como se as cores e a mensagem fossem demasiado grandes para o meu pequenino coração. E, quando acabou, fiquei convencido de ter acabado de ver uma das grandes obras de cinema do século XX.

Para resumir, sem desvendar spoilers, vou apenas dizer que Akira combina acção frenética, com dilemas existencialistas que fariam os grandes filósofos do século passado tremerem de respeito. Akira fala de Deus, de morte, de ganância, de moral, da sociedade, de política, de amizade, de loucura, de respeito e de bondade. E trata todos estes assuntos com o fluir natural de uma pincelada. É anime, mas podia ser outra coisa qualquer. Akira definiu um género cinematográfico, colocou-se ao lado dos gigantes do cinema europeu e americano e fez frente a obras como os Watchmen de Alan Moore - e tudo com uma simplicidade, com uma casualidade que nos parece vir de outro planeta. Mas Alas! Abram as bússolas, sigam Este - o planeta é o mesmo.


Golpes Altos: Um argumento brilhante, dinâmico, actual, original... já disse brilhante? Uma realização fantástica (literalmente). Uma banda-sonora arrepiante.

Golpes Baixos: Uma ou outra questão que, creio eu, devem estar mais desenvolvidas na BD, e mereciam mais uns minutos de filme.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Golpes de Génio - I'm Not There

Realização: Todd Haynes
Argumento: Todd Haynes
Elenco: Cate Blanchett, Christian Bale, Heath Leger, Richard Gere, Ben Wishaw, Marcus Carl Franklin

'There he lay: poet, prophet, outlaw, fake.. star of electricity. God rest his soul and his rudness.'

Contamos histórias. Falamos de homens, de vidas e, no fim, parece sempre faltar algo. I'm Not There não é um filme biográfico, é uma viagem pelas muitas vidas de Bob Dylan - do que foi, do que se tornou e do que gostaria de ter sido. É uma viagem pela alma de um dos artistas mais importantes do último século - e feito com tanto amor, com tanta inspiração que acabamos por admirar Dylan não como um todo, mas como uma soma das suas partes.

A viagem começa num comboio. Dylan é um rapazinho negro (Marcus Carl Franklin) cuja fala e música carregam em si o peso da idade - 'Live your own time child. Sing about your own time'. Salta de comboio em comboio, de família em família e visita o seu velho herói Woodie Guthrie no hospital (algo que Dylan nunca teve oportunidade de fazer). Dylan é um músico folk (Christian Bale) tornado padre. Passa à frente. Vimos uma mulher a chorar em frente à televisão - a guerra do Vietname acabou, e com ela a sua relação. É a primeira mulher de Dylan (Heath Ledger). Os tempos mudam, e Dylan (Cate Blanchet) muda com eles. Traiu o seu público. Abandonou o folk. É uma estrela de rock. Não. Agora é um bandido a cavalo (Richard Gere) que vai errando pelas estradas perdidas da memória, esquecido do caminho para casa.

A idade, a cor da pele, o cenário ou a época não são importantes. Bob Dylan foi todas estas pessoas e não foi nenhuma. Enquanto espectadores, somos transportados pelas músicas e pelas histórias - mas não nos é permitido interferir. Acabamos o filme um pouco mais perto do homem, mas sem nunca saber o que ele fez. Alguém há pouco tempo me disse que 'se nos esforçarmos muito para sermos uma coisa, mais cedo ou mais tarde não conseguimos fugir dela'. Ao longo da nossa vida não somos um, somos muitos. E os muitos que somos não se medem pelo que fazemos mas pelo que sentimos, pelo que sonhamos.

Se algum dia falarem de nós, que nos falem por dentro. Que nos mostrem pelos vários que somos. Que contem das nossas falhas, dos nossos erros, das nossas inconsistências. Que contem as vezes que falámos sem sentir, que sentimos sem falar. Que nos façam justiça, para bem ou para mal. Mas para ser: que seja a preto e branco, e com Dylan a tocar por trás!


'A poem is like a naked person... but a song is something that walks by itself'

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Golpes de Génio - Die Hard


Realização: John McTiernan, Renny Harlin e Len Wiseman
Argumento: Roderick Thorp (baseado no livro)
Elenco: Bruce Willis, Alan Rickman, Bonnie Bedelia, Jeremy Irons, Samuel L. Jackson, Timothy Olyphant

John McClane nasceu a 23 de Maio de 1955 em Plainfield, New Jersey e, a partir desse dia, o mundo tornou-se um lugar melhor. Um lugar onde terroristas, assaltantes - ou assaltantes que se fazem passar por terroristas - não têm qualquer hipótese de sucesso. Mas McClane não é um herói comum, é só "o tipo errado, no sitio errado, à hora errada" - e é por isso que eu gosto dele.

O primeiro filme da saga Die Hard saiu em 1988 e amanhã, 25 anos depois, vai estrear o quinto. Não se preocupem, ser-lhe-á dada a devida atenção quando estrear. Mas hoje, estou aqui para falar dos outros quatro.

Ninguém pode defender que esta seja a saga mais coerente de sempre. Os únicos filmes que parecem estar minimamente ligados são o primeiro e o terceiro - pelo grau de parentesco dos vilões - e apenas os dois primeiros são passados durante a época natalícia. No entanto, é McClane que liga os filmes uns aos outros e todos são, de facto, acerca dele. Os vilões do segundo e quarto filmes são completamente irrelevantes, e Bonnie Bedelia (actriz que faz o papel da mulher de McClane) parece ter desistido de aparecer nos restantes filmes da saga. Pior ainda, no quarto filme parece existir um total desrespeito pela personalidade de McClane. Subitamente, o homem que sempre teve medo de voar é visto a guiar um helicóptero, o "herói acidental" é retratado como um badass implacável - mas a realidade é que todos os filmes funcionam, isoladamente ou como um todo. O quarto talvez menos, mas não deixa de ser um filme de acção espectacular.

E Bruce Willis criou a personagem de John McClane juntamente com o resto da equipa técnica. Quem mais poderia matar 500 000 mauzões por filme e ter sempre uma piada na ponta da língua? Willis criou o herói relutante que fala ao imaginário masculino como mais ninguém. É a eterna crise de masculinidade retratada na perfeição. O homem tem problemas com álcool, é viciado no trabalho, adora westerns antigos, tem medo de voar, é um charmoso irremediável, não aguenta o casamento mas nunca mais consegue amar outra mulher, tem problemas de relacionamento com o filho e com os namorados da filha. McClane é o que todos somos com o acréscimo de, no fim, ser sempre o herói. O que mais pode um homem ser?

Isto é tudo verdade, e nem referi o facto de estes filmes virem com uma das maiores ofertas de acção de sempre da história do cinema. É acção para todos os gostos, diálogos para todos os gostos, McClane faz-nos rir, gritar e levantar os braços bem alto quando larga um "Yippee Kai Yay" em jeito de conclusão.

Mas acima de tudo, Die Hard é um daqueles produtos que nos aquece o coração na noite de Natal, que nos faz sentir em casa mesmo quando estamos longe. Die Hard faz uso do cinema para entreter, cria laços inquebráveis entre amigos e faz-nos sentir um bocado menos sozinhos num mundo com falta de heróis a sério. E enquanto tudo na minha vida vai mudando, McClane permanece o mesmo e, por isso, estou-lhe eternamente grato.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Golpes de Génio - Apocalypse Now


Realização: Francis Ford Coppola
Argumento: John Milius e Francis Ford Coppola
Elenco: Martin Sheen, Marlon Brando e Robert Duvall

"Going up that river was like travelling back to the earliest beginnings of the world, when vegetation rioted on the earth and the trees were kings".

O livro precede o filme, mas o horror mantém-se. Apocalypse Now é a versão cinematográfica do clássico de Joseph Conrad de 1899 Heart of Darkness. No livro, Willard é Marlow, o Vietname é o Congo, mas Kurtz é Kurtz - e não podia deixar de ser. Kurtz destaca-se entre os grandes personagens da ficção universal - lado a lado com Jay Gatsby e o Grande e Poderoso Oz - porque é mais que uma personagem, é um ideal.

No filme, Willard (Martin Sheen) sobe o Mekong numa missão para matar o Tenente Coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando) - um condecorado militar que desertou durante a Guerra do Vietname e que, tal como no livro, se estabeleceu nas trevas da selva como um deus. Willard alimenta ao longo do filme um crescente fascínio por Kurtz, pelo seu percurso e pelo momento em que se libertou das amarras do mundo moderno e das hipocrisias e fraquezas do mundo militar.

Se esta fosse a história, Apocalypse Now seria um filme de guerra - ainda que provavelmente o melhor de sempre - mas a história é muito mais que isto. Porque a viagem de Willard é uma viagem de auto-descoberta. De certa forma, não é Kurtz que o espera no final do rio, mas o lado negro da sua própria humanidade.

A meu ver, a personagem de Kurtz difere um pouco do livro para o filme, especificamente no que toca aos seus motivos. Ambos os personagens assumem a necessidade de se apresentarem aos nativos - sejam congoleses ou vietcongs - como deuses, para que possam dominar e não apenas sobreviver. Mas enquanto Mr. Kurtz é um homem guiado pela ambição e pelo marfim, o Coronel Walter E. Kurtz é um idealista. Vê-se a si próprio como alguém que teve o privilégio de ver o mundo fora do conforto e segurança da civilização ocidental e que, como consequência disso, encontrou uma humanidade perdida - em que nada resta senão o horror. Por isso não considero Kurtz louco. O homem permanece inteligente, racionalmente lúcido - foi a sua alma que se perdeu e as suas acções são reflexo disso. Porque, no fundo, o que Kurtz faz é abraçar a imoralidade do mundo, tornando-se o seu Rei e mais cruel representante.

Mas, mais uma vez, resumir o filme a estas premissas é insuficiente. Apocalypse Now é um filme exímio na sua concepção, em que cada cena e cada episódio narrativo estão perfeitamente combinados, de forma a que não reste dúvida da sua genialidade. Podia aqui escrutinar exaustivamente cena a cena, mas corria sérios riscos de os aborrecer para sempre. Por isso, basta dizer que o considero um dos três melhores filmes de sempre - lado a lado com os dois principais do Fellini.

Com o passar dos anos, vi e revi o filme, li e reli o livro, e a minha concepção da personagem de Kurtz foi-se transformando à medida que fui conhecendo o mundo onde vivemos. Percebo-o agora melhor que nunca, e questiono-me se, naquele contexto, Kurtz não era de facto um homem iluminado, que viu mais do que os outros, e se os loucos não somos nós, que confrontamos o horror enquanto tomamos o pequeno-almoço, escolhendo não ver as trevas do nosso próprio coração.

Golpes Altos: Interpretações, realização personalizada (a forma como Kurtz é filmado, com metade da sua cara escondida pela sombra), melhor argumento adaptado de sempre, grande banda-sonora, grande cinematografia.

Golpes Baixos: Apesar de perceber a intenção de encurtar a experiência cara-a-cara entre Willard e Kurtz, faz-me falta pelo menos mais uma hora de filme.